Painéis conectaram IA, sustentabilidade e saúde mental com convidados que cobraram ações pela preservação do planeta
No segundo dia do São Paulo Innovation Week nesta quinta-feira, 14, um maestro robô conduziu uma orquestra, uma neurocientista alertou sobre a passividade produzida pelas telas e uma liderança indígena lembrou que a natureza continuará existindo após o fim do mundo dos humanos.
Se a estreia do evento foi marcada por discussões sobre os limites da inteligência artificial, a programação desta quinta voltou o foco para os impactos emocionais, sociais e ambientais da tecnologia onipresente e da sociedade hiperconectada.
Promovido pelo Estadão em parceria com a Base, o SPIW reúne especialistas por três dias para discutir inovação sob as lentes da ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, sustentabilidade, arte e filosofia.
Pela manhã, a Orquestra Bachiana Filarmônica performou Eine kleine Nachtmusik, de Mozart, em apresentação iniciada com um robô humanoide como maestro. Após alguns momentos, o pianista João Carlos Martins assumiu o comando e o público presenciou uma diferença flagrante entre a condução de mãos humanas e a da máquina. "Nada substitui o coração e a alma de um ser humano", afirmou o maestro.
Já à noite, um show de drones iluminou o céu sobre o Pacaembu ao recriar os logos do Estadão e do SPIW, além de um avião 14-Bis. O espetáculo visual reforçou o clima de fascínio tecnológico que atravessou os debates do festival.
Mente humana, excesso de estímulo e os limites da automação
Em painel sobre o futuro da mente humana, a neurocientista Suzana Herculano-Houzel alertou para os riscos de terceirizar habilidades cognitivas à automação e criticou a passividade produzida pelas plataformas digitais. "Quando está rolando a tela, você está sendo um consumidor passivo de uma empresa que está ganhando dinheiro às suas custas", afirmou.
Ela explicou que a inteligência é desenvolvida conforme o cérebro é usado para "descobrir valores individuais, aplicar informações para abrir portas, pensar adiante e experimentar novas formas de agir": "O uso mais inteligente da nossa inteligência é não sabotar nossas habilidades por meio da terceirização e automação que nos roubam essas oportunidades."
A economista Vanessa Mathias, fundadora da empresa White Rabbit, e a neurocientista Heather Collins, deram dicas para as pessoas não "emburrecerem" na era da IA. As palestrantes recomendam escrever a dúvida em um pedaço de papel antes de recorrer a uma plataforma de IA e "procurar a discordância, não a confirmação".
O filósofo Luiz Felipe Pondé provocou a plateia ao argumentar que dizer que precisamos ser mais humanos diante das tecnologias "não significa nada". "A história da humanidade é de massacres, avanços, regressos, ganhos e perdas. Não há nenhuma prova que a humanidade, enquanto moral e política, esteja de fato avançando", apontou.
Pondé abordou a sensação de ter que lidar com cada vez mais informações em menos tempo, acentuada pelo mundo hiperconectado. "Você tem que ser consciente o tempo inteiro. Agora, você tem que ser consciente com o fato de que a inteligência artificial talvez seja mais inteligente do que você", disse.
A preocupação com o avanço tecnológico também apareceu na fala do poeta Fabrício Carpinejar, que foi ovacionado pelo público e se apresentou andando no meio dos presentes. "Dizem que as doenças silenciosas, depressão, ansiedade, são causadas por excesso de solidão. Eu diria que é por falta de solidão. As pessoas não suportam a solitude", refletiu.
Em reflexão sobre empatia, o psicanalista Christian Dunker afirmou que o exercício da escuta se perde cada vez mais em meio aos algoritmos. Segundo ele, nas plataformas digitais vende-se uma imagem acolhedora e simpática de si que muitas vezes não se reflete na realidade. "Não dividimos nossas vulnerabilidades, frustrações, angústias", disse, acrescentando que "está nascendo um muro entre gerações, raças e classes".
Sustentabilidade, natureza e futuro
Em diferentes palestras e painéis, participantes ressaltaram que a sustentabilidade se tornou uma pauta central para a sobrevivência econômica e social. Em discussão sobre agronegócio e liderança empresarial, o professor Antonio Marcio Buainain, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), argumentou que o agro brasileiro precisa "assumir radicalmente a agenda da sustentabilidade" e enfrentar o desmatamento "com muita seriedade".
Tania Cosentino, ex-presidente da Microsoft Brasil e conselheira da ICC (International Chamber of Commerce), criticou empresas que aderiram à discussão apenas por pressão do mercado e a abandonaram com o fim do hype. Ela defendeu que as lideranças corporativas precisam se importar o suficiente para sustentar decisões difíceis. "O líder precisa ter coragem na hora em que vai assinar e deslocar budget para um negócio de sustentabilidade, porque todo o entorno vai cobrar uma coisa diferente dele", afirmou.
Em painel sobre ancestralidade e pertencimento, a liderança indígena Txai Suruí chamou atenção para os impactos da crise climática e criticou a ideia de superioridade humana sobre a natureza. "Achamos que somos maiores que tudo, inclusive que a natureza. Não somos. Se o fim do mundo chegar, será o fim do mundo pelos humanos. A natureza vai permanecer", afirmou.
O alerta também ecoou na mesa com a presença da navegadora Tamara Klink, primeira latino-americana a cruzar sozinha a Passagem Noroeste no Ártico. Ela explicou que sua travessia só foi possível devido ao derretimento do chamado "gelo eterno", trecho que permanecia congelado mesmo no verão. "O Ártico vai parar de ser um ar condicionado natural do planeta e vai virar um aquecedor", alertou sobre o derretimento das geleiras.
IA para quê?
A transformação digital das rotinas em empresas, instituições e no poder público com a inevitável incorporação da IA no ambiente de trabalho foi explorada de diferentes ângulos pelos painelistas.
Gestores de duas cidades do interior paulista apresentaram casos de uso de ferramentas para combater a dengue e a sonegação de impostos e monitorar o uso de frotas de veículos públicos. Segundo Geninho Zuliani, prefeito de Olímpia, a IA ajuda o gestor público diante de quadros fiscais cada vez mais críticos. "É uma regra de três. Precisamos entregar mais com menos", resumiu.
Em uma das palestras mais aguardadas do festival, o filósofo e ex-ministro da Educação da França, Luc Ferry, avalia que a era da IA representa a revolução mais importante da história humana. Ele projeta uma queda drástica de empregos nos próximos anos - não somente de trabalhos automatizáveis - e sugere uma renda mínima universal, obtida por taxas impostas ao uso de robótica e IA, para mitigar os impactos desse desemprego.
Priscyla Laham, presidente da Microsoft Brasil, questionou o entendimento de que as aplicações da inteligência artificial dizem respeito à tecnologia em si e ressaltou que ela não pode substituir a tomada de decisões por humanos: "Na verdade, a IA é sobre transformações dos humanos, de trabalho e das empresas. Não é o resultado final de nada", disse.
Para o futurista Ian Beacraft, CEO da consultoria de inovação Signal and Cipher, também é preciso que as empresas transformem o jeito de trabalhar para tirar o máximo da inteligência artificial e superar, por exemplo, a diferença de velocidade na execução de tarefas entre sistemas inteligentes e trabalhadores humanos.
Ele acredita que a IA assumirá a vasta maioria das tarefas de execução do mercado de trabalho e propõe uma mudança na hierarquia laboral: o trabalhador assumiria o planejamento dos fluxos de trabalho, o julgamento ético e a definição dos critérios de sucesso da organização, deixando os aspectos operacionais para as ferramentas.

