Na mesa O Poder da Criação - Como Juntar Pensamento e Ficção, durante o São Paulo Innovation Week, maior festival global de tecnologia e inovação, realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, nesta sexta-feira, 15, as escritoras Maria Homem e Rebecca Goldstein passearam pelas fronteiras entre filosofia, criação e religião.
Rebecca, de 76 anos, é referência em aproximar filosofia, ciência e literatura do debate contemporâneo. A americana é autora de dez livros, de ficção e não ficção, entre eles estão 36 Argumentos Para a Existência de Deus e Platão no Googleplex: Por Que a Filosofia Não Vai Acabar.
"Criar é trazer algo ao mundo, algo que não estava lá antes. Nós queremos provar para nós mesmos que não estamos desperdiçando nosso tempo. É isso que nos diferencia de outras espécies", disse ela, que em 2015 foi agraciada com a Medalha Nacional de Humanidades pelo ex-presidente Barack Obama em uma cerimônia na Casa Branca.
"É ousado ter a sua voz na mente dos outros. Pedir que as pessoas leiam seu livro é um grande pedido. Sempre que escrevo preciso me convencer de que aquilo faz sentido e merece atenção", confessou Rebecca sobre seu ofício.
Já a psicanalista Maria Homem, autora de livros como Coisa de Menina? e Lupa da Alma, atuou como uma espécie de moderadora da mesa, trazendo à pauta questões sobre desejo e religião.
Ela citou que a colega de palco cresceu em uma família judaica e questionou como foi o processo dela para abrir mão da religião.
"Sempre achei a noção dos judeus serem um povo escolhido um pouco ofensiva. Mas o que me incomodava é o fato de existir tanto sofrimento e maldade no mundo com Deus olhando tudo. Cresci com isso pois minha família judaica sofreu muito na Europa. Então, havia essa contradição com Deus. Entendi muito a respeito disso lendo Bertrand Russell, que mudou a minha vida", explicou a americana.
A brasileira replicou brincando que teologia "se vira nos 30" para explicar o debate que há um "Deus bom" diante de um "mundo ruim". "Achei lindo a Rebecca confessar essa angústia moral e a relação com Russel. Nesse sentido vejo o livro como um objeto transformador em nossas vidas, assim como sessões de terapia".
"Estou na missão delirante de ampliação com a consciência e entendo que a criação vem da angústia", acrescentou Maria em outro momento, depois de perguntar quais foram as três experiências mais transformadoras da vida de Rebecca.
"Ir para a universidade, onde eu era como uma criança na loja de doces; ter filhos, deixando as paixões deles emergirem; e, por último, foi encontrar o meu marido [o linguista Steven Pinker, que também participa do SPIW e assistia ao debate]", respondeu a americana, sendo ovacionada pelo público.
Por fim, elas debateram se a criação e a leitura estão sendo afetadas com crescimento da inteligência artificial. "A IA é uma preocupação. Percebo que os estudantes não conseguem ler tanto como antes. Mas estou preocupada há muito, pois vivemos uma cultura de distração, com redes sociais e política, por exemplo", afirmou Rebecca.
Rebecca participa, ainda nesta sexta, da mesa O Instinto de Importar: Por Que Precisamos Sentir Que Nossa Vida Tem Sentido, ao lado do cientista Marcelo Gleiser, abordando o tema central de seu livro mais recente, The Mattering Instinct (ainda sem tradução no Brasil).
O São Paulo Innovation Week, maior festival global de tecnologia e inovação, é realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, até esta sexta-feira, 15. Entre os mais de 2 mil palestrantes convidados para os três dias do evento estão especialistas brasileiros e estrangeiros em áreas como ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia, entre muitas outras.
No fim de semana, o festival leva uma série de eventos paralelos (side events) gratuitos para quatro Centros Educacionais Unificados (CEUs) da cidade, em parceria com a Prefeitura de São Paulo. São eles: Heliópolis, Freguesia do Ó, Papa Francisco (Sapopemba) e Silvio Santos (Cidade Ademar). Não é necessário fazer inscrição; o acesso será por ordem de chegada, sujeito à lotação dos espaços. A programação gratuita reúne nomes como Marcelo Gleiser, Maria Homem e Ivair Gontijo em debates e experiências imersivas.

