SPIW termina com reflexões sobre o futuro em mundo reorganizado pela tecnologia

O último dia do São Paulo Innovation Week (SPIW) nesta sexta-feira, 15, consolidou uma tese construída ao longo dos três dias de festival: a de que o uso da inteligência artificial já não ocupa apenas laboratórios ou empresas de tecnologia, mas atravessa profissões, relações humanas e a forma como as pessoas raciocinam e projetam o futuro.

Pesquisadores, executivos, artistas e autoridades públicas presentes também deixaram claro que a inovação pode já ter sido vista como um tema restrito à tecnologia, mas se reflete em áreas como saúde mental, sustentabilidade, ciência, esporte, gestão e cultura.

Promovido pelo Estadão em parceria com a Base, o SPIW, que volta em 2027, reuniu mais de 80 mil visitantes e 1.877 palestrantes - 160 deles internacionais - em 990 horas de conteúdo, distribuídas em palcos no Pacaembu e na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap).

Depois de uma abertura marcada por debates sobre os limites entre humanos e máquinas e de um segundo dia centrado nos custos emocionais e ambientais da hiperconectividade, o encerramento do evento deslocou a discussão para as consequências práticas dessa transformação digital na vida moderna.

O ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), participou de discussão sobre o uso de IA no Poder Judiciário em que advogados e magistrados avaliaram que ela pode aprimorar a prestação da Justiça, mas não deve substituir o papel do jurista. Segundo o ministro, seu uso pode agilizar tarefas como geração de ementas ou resumo de petições, mas não deve ser "indiscriminado".

Em um dos painéis mais concorridos do dia, a pesquisadora Michelle Schneider afirmou que o principal impacto da IA sobre o mercado de trabalho não deve ser medido apenas pelas demissões em massa, mas pelo desaparecimento dos cargos de entrada nas carreiras.

Segundo ela, empresas já conseguem entregar o mesmo resultado com estruturas mais enxutas apoiadas em ferramentas automatizadas, enquanto profissionais passam a ser cobrados por habilidades menos repetitivas e mais analíticas, como gerenciar os agentes de IA e desenvolver pensamento crítico.

"O maior ganho não vem de quando a gente só automatiza, mas da ampliação. O que você faz hoje não vai fazer daqui a cinco anos. A automação entra, a IA passa a fazer a tarefa, então a demanda muda", resumiu.

A percepção de que a IA representa uma mudança estrutural também foi trazida por Guilherme Horn, CEO do WhatsApp no Brasil. "Você vai olhar para uma pessoa que não usa um agente de IA pessoal da mesma forma que você olha hoje para uma pessoa que não tem um celular", afirmou. "A IA não é uma nova ferramenta tecnológica. Ela representa uma mudança na civilização", disse ele, que também é autor do livro O Mindset da IA: Ela Pensa, Você Decide.

O contraponto ficou por conta do escritor Douglas Rushkoff, segundo quem "em vez de um renascimento tecnológico, nós acabamos em um pesadelo anti-humano". Rushkoff afirma que os recursos empregados para escalar a era da IA poderiam ter sido usados para desenvolver a criatividade da população e defende que as ferramentas criadas pelo Vale do Silício reproduzem ideais de uma minoria. "Começamos a usar ferramentas e tecnologia nas pessoas para que elas pensem e se comportem nos determinados níveis esperados", disse.

Quando a automação muda o valor do humano

Nesse cenário mais automatizado, defenderam painelistas, torna mais importante valorizar habilidades humanas e buscar viver com mais qualidade.

A estrategista criativa Jubi Moreira, do TikTok, explicou como as plataformas mudaram o jogo também para a influência e criação de tendências ao reinventarem a lógica de produção de conteúdo. "O processo criativo se inverteu um pouco. O consumidor final, muitas vezes, é quem dá o gatilho criativo para a marca por meio dos conteúdos na internet. É a comunidade que descobre a tendência", afirmou.

Ao falar sobre racionalidade e polarização em conversa com o físico Marcelo Gleiser, o psicólogo Steven Pinker defendeu a necessidade de criar espaços de discordância sem radicalização. "Nós nunca vamos saber o que é objetivamente correto. Deve haver espaço para discordância sem que as pessoas se matem", afirmou.

O cineasta Spike Jonze, vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original pelo filme Ela (Her), foi uma das principais atrações do SPIW. Ao ser questionado sobre o longa, em que um homem se apaixona por um sistema de IA, ele foi categórico: "As relações com IAs vão acontecer, então temos que pensar em como fazê-las positivas. Mas essas coisas são feitas por corporações capitalistas que possuem uma agenda, e essa é a parte perigosa disso".

O SPIW também abriu espaço para debates literários. O escritor Itamar Vieira Junior, autor de Torto Arado e outros livros, falou sobre como suas obras trabalham realidades que não podem ser dissociadas da história do País. "A literatura tem capacidade de muita coisa, menos de prever como será o mundo futuro", afirmou.

A apresentadora Angélica, que participou de discussões sobre longevidade e saúde mental, relembrou um colapso emocional vivido no auge da carreira e ressaltou a importância de desacelerar: "Não é luxo ter um tempo para respirar".

Ela é embaixadora da WellHub, cujo CEO no Brasil, Ricardo Guerra, participou de painel sobre a construção de futuros sustentáveis. De acordo com ele, o mundo vive a "crise da sustentabilidade do ser humano", que definiu como "o recurso na Terra mais maltratado". "Enfrenta sedentarismo, diabetes, depressão e tantas outra coisas", disse.

Nesse cenário, segundo a psiquiatra e neurocientista Juliana Belo Diniz, a substituição do atendimento humano por sistemas automatizados se apresenta hoje como um dos maiores riscos para a área da psiquiatria e saúde mental. "A IA, apesar de consumir muitos recursos e ter problemas ecológicos, é muito escalável. Mas, na medicina, quanto mais tecnologia, mais custo. E se reduz custos sucateando o trabalho humano", argumentou.

Ciência, tecnologia e a disputa pelo futuro

O festival também abriu espaço para reflexões sobre produção de conhecimento, desafios da aplicação da tecnologia em nível institucional e o papel do Brasil na economia global. Carlos Oliveira, presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), reforçou a importância de direcionar investimentos para transformar conhecimento científico em inovação: "É importante ajudar cientistas a empreenderem. O Brasil é o 14º país em produção científica, mas o 52º em inovação", apontou.

A diretora da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), Anna Helena Reali Costa, falou sobre a necessidade de o País abandonar uma lógica baseada apenas na exportação de commodities. "Precisamos sair da fase de extração para a fase de criação. A engenharia cria o novo, cria o que não existe", afirmou, ressaltando que o Brasil é um dos países que menos forma engenheiros.

No que diz respeito ao uso de IA, o professor de Relações Internacionais da Faap Alexandre Ramos Coelho defende que o Brasil tem potencial para ocupar uma posição de destaque no cenário global. "Precisamos definir nossos objetivos. Se não tivermos objetivos muito claros, não conseguiremos captar nada de bom de nenhum dos lados nessa onda", disse, referindo-se aos esforços de Estados Unidos e China para vencer a corrida do desenvolvimento da tecnologia.

SPIW para além do Pacaembu e Faap

Neste fim de semana, dias 16 e 17 de maio, o São Paulo Innovation Week amplia sua programação para as periferias da capital paulista com debates, oficinas e experiências imersivas voltadas à tecnologia, cultura, empreendedorismo e futuro do trabalho.

O festival promove atividades nos Centros Educacionais Unificados (CEUs) Heliópolis; Silvio Santos, na subprefeitura de Cidade Ademar; Papa Francisco, em Sapopemba; e Freguesia do Ó. O acesso é gratuito e por ordem de chegada, sujeito à lotação dos espaços.