A estudante Lorena Oliveira, de 15 anos, fez uma das perguntas mais difíceis da ciência: o que existia antes do Big Bang? Diante de um auditório com vários adolescentes no CEU Silvio Santos, na Cidade Ademar, na zona sul de São Paulo, o físico e astrônomo Marcelo Gleiser explicou que a ciência consegue descrever, "tim-tim por tim-tim", a expansão do universo a partir de frações de segundo depois de sua origem, mas que ainda não há resposta definitiva para o instante zero. "A ciência não precisa ter todas as respostas para ser importante", afirmou.
A cena resume o espírito dos Side Events do São Paulo Innovation Week (SPIW), festival de inovação e empreendedorismo promovido pelo Estadão em parceria com a Base Eventos.
Em parceria com a Prefeitura de São Paulo, os encontros do SPIW ocorrem também dentro dos CEUs, equipamentos públicos que promovem acesso à cultura, educação e convivência comunitária. A programação ocorre neste fim de semana, dias 16 e 17, em quatro unidades.
"É importante deselitizar o conhecimento", disse Gleiser ao Estadão antes da apresentação. "O conhecimento precisa circular pela cidade inteira, não só nos pontos centrais."
Curador da trilha Ciência para Todos do SPIW, o professor de Física e Astronomia do Dartmouth College, nos Estados Unidos, transformou conceitos complexos em conversas acessíveis, aproximando o universo da realidade dos alunos.
Compartilhar conhecimento
Logo no início, Gleiser pediu que os estudantes se aproximassem do palco. Queria menos distância entre plateia e palestrante. Com imagens de galáxias projetadas em um telão, explicou como telescópios espaciais são posicionados entre a Terra e o Sol para escapar da poluição luminosa e da interferência da atmosfera.
"A gente olha para o céu, mas as tecnologias desenvolvidas para isso acabam sendo aplicadas aqui na Terra", disse, citando avanços em óptica, GPS e equipamentos usados no cotidiano.
Ao longo da palestra, o físico apresentou algumas das perguntas que, segundo ele, movem a ciência até hoje: como o universo começou, como a vida surgiu na Terra e se existem outras formas de vida no cosmos. "Temos um trilhão de planetas na nossa galáxia. Mas até hoje temos zero evidência de que seres extraterrestres tenham chegado aqui", explicou.
Gleiser falou sobre astrobiologia, comentou as condições extremas de Vênus e Marte e destacou que, se a vida for realmente rara no universo, isso torna a Terra ainda mais especial.
O tema da inteligência artificial também despertou atenção entre os estudantes. Gleiser alertou para os riscos de uma relação passiva com as novas tecnologias. "Uma coisa é usar a ferramenta para aprender e adquirir conhecimento. Outra é deixar as máquinas pensarem por nós", afirmou.
Para ele, sistemas de IA podem ampliar capacidades humanas, mas jamais substituir aspectos fundamentais da experiência humana, como empatia, sensibilidade e percepção do mundo.
Na reta final, Gleiser voltou ao céu para explicar como a visão humana sobre o universo mudou ao longo dos séculos, de Galileu à descoberta da expansão das galáxias por Edwin Hubble. "Quanto mais aprendemos, menos centrais percebemos que somos."
Ainda assim, defendeu que a ciência continua sendo a principal ferramenta da humanidade para compreender o mundo, mesmo diante de perguntas sem resposta definitiva.

