A mãe da juíza Mariana Francisco Ferreira, de 34 anos, que morreu após realizar uma coleta de óvulos em Mogi das Cruzes, afirmou à Polícia Civil que o médico responsável pelo procedimento realizado dois dias antes da morte da magistrada já havia providenciado o atestado de óbito quando comunicou o falecimento da paciente.
Em depoimento, a mãe de Mariana relatou que foi chamada ao Hospital e Maternidade Mogi Mater na manhã de 6 de maio e recebeu a notícia de que a filha havia sofrido duas paradas cardiorrespiratórias. Segundo ela, após informar a morte, o médico Maurício Ligabô, da Clínica Invitro Reprodução Assistida, teria dito: "Já cuidei do atestado de óbito e não esperei o tempo certo, para adiantar as coisas". Procurada, a defesa de Ligabô não retornou.
A mãe também afirmou à polícia que estranhou a rapidez com que os procedimentos para liberação do corpo foram conduzidos. Segundo o relato, após comunicar o óbito, o médico se ofereceu para ajudá-la com questões burocráticas e disse que poderia agilizar os trâmites.
"O que você precisar eu te ajudo, porque eu conheço muita gente em Mogi. Anota meu telefone particular. Eu posso agilizar tudo para você, pois conheço pessoas da funerária", disse o Ligabô, segundo depoimento da mãe da juíza.
Ela contou que chegou a procurar uma funerária para escolher um caixão, mas foi orientada a não prosseguir com o enterro antes da realização de exame necroscópico.
Como mostrou o Estadão, depois da família optar pela realização da autópsia, o último contato com Maurício ocorreu no hospital, quando ele compareceu para assinar documentos relacionados ao exame. Segundo a irmã de Mariana, advogada Luíza Ferreira, a mãe contou que, naquele momento, o profissional "não olhou nem na cara dela".
Juíza morreu dois dias após coleta de óvulos
No depoimento, a mãe afirmou que a filha deixou a clínica na manhã de 4 de maio reclamando de dores. Cerca de uma hora depois, ela começou a sentir dores nas costas e na região pélvica, vômitos, sensação de frio e um sangramento vaginal.
Segundo o depoimento, o médico informou que uma artéria havia se rompido durante a coleta dos óvulos e precisaria ser suturada para conter o sangramento. A mãe afirmou que ele tentou realizar o procedimento antes da chegada do anestesista e que a sutura só foi concluída após a sedação de Mariana. Depois disso, a paciente teve sangue coletado mais de uma vez. Ainda segundo o relato, uma enfermeira estranhou a coloração amarelada do material e disse que avisaria o médico.
Ainda de acordo com o relato, Mariana foi levada ao Hospital Mogi Mater no mesmo dia. Como a clínica não disponibilizou uma ambulância para o atendimento, Mariana foi levada pela própria mãe, acompanhada por uma enfermeira da clínica. No hospital, exames apontaram complicações que incluíam problemas renais.
Mãe de Mariana acompanhou a filha durante o procedimento
A mãe da magistrada também descreveu episódios ocorridos durante a internação. Segundo ela, na noite de 4 de maio, presenciou dois profissionais de enfermagem rindo enquanto a filha reclamava de dores intensas. Ela afirmou à polícia que os funcionários faziam pouco caso das queixas da paciente.
Apesar disso, ela afirmou que uma das médicas responsáveis pelo atendimento demonstrava preocupação com a gravidade do caso e acompanhava de perto a evolução do quadro clínico de Mariana.
Como mostrou o Estadão, duas médicas que atenderam a juíza no hospital informaram em depoimento à Polícia Civil que alertaram inúmeras vezes sobre a necessidade de uma cirurgia de emergência para salvar a vida da magistrada.
Nos dias seguintes, segundo a mãe, Mariana passou a apresentar palidez, lábios arroxeados, dores persistentes e agravamento do quadro clínico. Durante todo o período de internação no hospital,Mariana apresentou piora no quadro, mas Ligabô negou várias vezes que ela precisasse passar por cirurgia.
Ela morreu na manhã de 6 de maio, após sofrer duas paradas cardíacas e ter dois órgãos retirados durante cirurgia. O procedimento foi autorizado por Ligabô somente cerca 28 horas após a entrada dela no hospital.
Em depoimento à Polícia Civil, um terceiro médico intensivista que atendeu Mariana contou que a autorização para a realização da cirurgia ocorreu somente após a comprovação da presença de sangue na cavidade abdominal por parte da equipe médica do hospital.
O IML concluiu que a causa da morte de Mariana permanece indeterminada e depende de exames complementares. A necropsia identificou hemorragia abdominal, coágulos e lesões na região pélvica, além de sinais de intervenções cirúrgicas realizadas após o agravamento do quadro. Segundo o documento, foi registrada a presença de cerca de 200 ml de líquido com sangue na cavidade abdominal da magistrada.
O exame apontou ainda necrose hemorrágica parcial no ovário direito e alterações em outros órgãos, mas os peritos afirmam que os achados não são suficientes para definir o que provocou a morte.
De acordo com os relatos à polícia, duas intensivistas que atenderam Mariana apontaram presença de "líquido livre na cavidade uterina". Ligabô havia afirmado que a quantidade de líquido não era sangue, mas sim um resultado do "hiperstímulo causado pelas medicações ovulatórias". "Mas essa condição é resolutiva e espontânea", disse o ginecologista responsável pela coleta.
A juíza encarava a maternidade como um projeto de vida e sonhavam em gestar. "Ela estava bem ansiosa. Era um sonho bem grande ser mãe", contou a irmã.
O que dizem os envolvidos
A defesa da família de Mariana afirmou que "confia plenamente no trabalho da Polícia Civil de Mogi das Cruzes e espera que todos, que agiram em menor ou maior proporção em ações ou omissões que levaram a morte da juíza, sejam indiciados, processados e condenados pela justiça".
A defesa de Maurício Ligabô afirmou "é equivocada a informação de que o atestado de óbito já estava pronto e entregue por ele à mãe. O atestado de óbito foi elaborado por uma junta médica: ele, uma intensivista e até uma advogada do hospital estava, como se faz em todo atestado de óbito".
"É importante destacar que neste momento tudo é muito especulativo e, portanto, é imprudente sair decretando hipóteses e sair procurando algum culpado como bode expiatório, sobretudo sem o laudo do IML, que irá esclarecer muitos pontos ainda em aberto. É precisamente nesses momentos de afobação e busca frenética por um culpado que é preciso impor mais cautela, até para evitar que a verdadeira causa da morte da Mariana não seja apurada em razão de especulações superficiais que colocam hipóteses vazias como fatos certos."
"Com relação à constatação do IML e o quadro defendido por Maurício, cumpre registrar que a hiperestimulação ovariana era a afirmação dele bem inicial, no início da intercorrência. Com o decorrer da evolução do quadro ele foi em conjunto com os médicos na UTI formando uma avaliação mais profunda e inclusive recomendando a cirurgia."
"É importante reafirmar que ele sempre esteve no hospital justamente para permanecer apurando o quadro dela em auxílio aos médicos do hospital, que nitidamente não estavam dando conta da situação e a todo tempo solicitavam o auxílio de Maurício, que inclusive levou um intensivista de fora do hospital para ajudar, o que reforça a deficiência do atendimento no hospital."
"Maurício prestará ainda muitas informações em seu interrogatório que colaborará para o desfecho correto e preciso sobre a causa da morte de Mariana, que é o que ele mais quer hoje", concluiu.
O Hospital e Maternidade Mogi-Mater disse que a paciente deu entrada apresentando um quadro de hemorragia aguda. "Diante da gravidade do caso, ela foi prontamente atendida pela equipe do pronto-socorro e encaminhada imediatamente para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI)", informou o hospital.
Conforme a rede hospitalar, desde a admissão, todas as medidas médicas e assistenciais cabíveis foram adotadas de forma incansável pelas equipes multiprofissionais, com o objetivo de estabilizar o quadro clínico da paciente.
"Como ela não havia realizado nenhum procedimento anterior no hospital, o médico responsável pela clínica foi acionado para acompanhar o caso e assim o fez, incluindo no procedimento cirúrgico realizado na terça-feira, 5. "Apesar de todos os esforços empregados pela equipe hospitalar, infelizmente ela veio a óbito no dia seguinte", disse o hospital ao lamentar a morte.

