Polícia Federal rastreia R$ 468 mil de Sóstenes

Dinheiro seria fruto de um esquema de desvio da cota parlamentar

Sóstenes Cavalcante informou que vai se pronunciar quando tiver acesso aos autos, que já estão públicos
Sóstenes Cavalcante informou que vai se pronunciar quando tiver acesso aos autos, que já estão públicos -
Embalados em quatro pacotes de cédulas de R$ 100 etiquetados, acondicionados em um saco plástico e ocultos em um guarda-roupa, os R$ 468,7 mil apreendidos em dezembro na residência do deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do partido na Câmara, seriam fruto de um esquema de desvio da cota parlamentar. Segundo a Polícia Federal, o dinheiro não é exclusivamente da venda de uma propriedade em Minas Gerais, como o parlamentar alegou à época da apreensão.

O Estadão pediu manifestação a Sóstenes sobre a operação. Ele informou que vai se pronunciar quando tiver acesso aos autos, que já estão públicos. O espaço segue aberto.

Nesta quarta-feira (1º), a corporação deflagrou a terceira fase da Operação Rent a Car, que mira advogados ligados ao deputado. A apuração foca um suposto desvio de recursos da cota da Câmara por meio da locadora Harue Locação de Veículos Ltda., suspeita de emitir notas fiscais fictícias. A reportagem busca contato com a empresa.

Os investigadores seguiram o caminho do dinheiro e identificaram "uma complexa movimentação financeira entre empresas, com recebimento de verbas públicas e expressivos saques em espécie". De acordo com o inquérito, as etiquetas coladas nos pacotes encontrados no imóvel do parlamentar, em Brasília, levaram às empresas EJUS Empreendimentos Imobiliários Ltda. e Foco Engenharia e Incorporações Ltda., além dos irmãos Jonas Keslley Gonçalves Umbelino e Jecy Kenne Gonçalves Umbelino.

As companhias e os dois irmãos foram alvo de busca e apreensão nesta manhã. A reportagem busca contato com a defesa dos citados.

Diz a polícia que Jonas e Jecy aparecem vinculados, em análises de inteligência, a transações financeiras complexas, recebimento de recursos públicos, saques de grandes quantias em dinheiro e a uma estrutura societária compartilhada atrelada ao deputado.

Quando foi alvo da instituição, em dezembro, Sóstenes afirmou que a quantia tinha origem na venda de um imóvel em Ituiutaba (MG), supostamente quitado em dinheiro vivo.

A partir dessa versão, os agentes produziram dois relatórios para verificar a capacidade financeira do alegado comprador, o advogado Thiago Ferreira de Paula, a compatibilidade econômica da transação e a eventual relação entre o negócio e o montante apreendido. Thiago também foi alvo de buscas nesta manhã. O Estadão busca contato com sua defesa.

A linha de apuração sobre a venda do bem em Ituiutaba levou a analisar a escritura pública do negócio, registrada em 30 de dezembro de 2025. O documento formalizou a transferência da propriedade ao advogado pelo valor de R$ 500 mil.

Na escritura, as partes declararam que o pagamento havia sido feito em dinheiro, em 24 de novembro de 2025. A cronologia, porém, levantou suspeitas. Nota-se que o documento foi lavrado apenas em 30 de dezembro, dias depois das buscas — realizadas em 19 de dezembro —, quando os R$ 468,7 mil foram recolhidos.

O caso também identificou indícios de incompatibilidade financeira envolvendo o comprador. Apontou-se que a movimentação de créditos de Thiago de Paula era cerca de 17,7 vezes superior à renda declarada, superando sua capacidade em R$ 608 mil.

Para a força-tarefa, as atenções se concentram em dois eixos. O primeiro envolve o grupo empresarial formado pelos irmãos Jonas e Jecy e pelas firmas EJUS Empreendimentos Imobiliários, Foco Engenharia e Incorporações e J. Umbelino Participações. O segundo diz respeito à narrativa apresentada para justificar a origem do dinheiro, centrada na venda do imóvel a Thiago Ferreira.

"Em ambos os eixos, o que emerge é um quadro de relevante opacidade financeira e patrimonial", afirma o relatório. Segundo o texto, há indícios de "interligação societária, recebimento de recursos públicos, saques expressivos em dinheiro vivo e inconsistências cronológicas e financeiras na negociação", além da ausência de "comprovação bancária contemporânea para o pagamento declarado e de movimentações incompatíveis com a renda ostensiva do comprador".
* Reportagem de Rodrigo Maciel, sob supervisão de Marlucio Luna