Uma das escritoras mais proeminentes da literatura portuguesa contemporânea, Lídia Jorge tem obra reconhecida pela análise profunda da história recente de seu país, pela reflexão social e pela defesa dos direitos humanos e das mulheres.
A autora receberá um prêmio de 100 mil euros, pagos por meio de subsídio da Fundação Biblioteca Nacional e do governo de Portugal.
>> Siga o canal da Agência Brasil no WhatsApp
Análise do júri
Nesta edição, os jurados foram:
- professor José Carlos Seabra Pereira (Universidade de Coimbra – Portugal);
- professora, poeta e ensaísta Ana Mafalda Leite (Universidade de Lisboa – Portugal);
- professora e pesquisadora Lucia Santaella (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUCSP, Brasil);
- professor, jornalista, historiador e doutor em Letras, José Ribamar Bessa Freire (Brasil);
- escritor e crítico literário Lopito Feijó, (Angola);
- escritora, poeta, professora universitária e pesquisadora Odete Semedo (Guiné-Bissau).
Segundo análise do júri, desde o romance O Dia dos Prodígios, de 1979, “o diversificado conjunto da obra de Lídia Jorge contribui para enriquecer o patrimônio literário e cívico-cultural da língua portuguesa, trazendo experiências do último período da guerra colonial.
"Já A Costa dos Murmúrios, de 1988, é um marco importante na sua obra, uma vez que destaca a sua experiência de vida em Moçambique e desconstrói as versões da guerra colonial sob a perspetiva de uma mulher”.
Um dos últimos romances da autora, intitulado Misericórdia, de 2022, fala sobre a velhice, a urgência da vida e a resistência ao fim.
Marcada por uma prosa poética densa, a escrita de Lídia Jorge aborda o passado ditatorial de Portugal, a condição feminina, o impacto das transformações históricas na vida quotidiana, o significado das revoluções, a emigração, as tensões entre a sociedade moderna e pós-moderna, os conflitos entre gerações, as rupturas familiares, com um estilo literário de forte carga lírica e foco na memória coletiva.
“Por todos esses motivos, o júri considerou, unanimemente, Lídia Jorge merecedora do Prêmio Camões 2026”, diz a ata do júri.
Poder da escrita
Para a ministra da Cultura do Brasil, Margareth Menezes, a escolha de Lídia Jorge para o Prêmio Camões de Literatura 2026 celebra uma das grandes vozes da literatura em língua portuguesa, cuja obra reafirma o poder da escrita para preservar memórias, ampliar horizontes e promover reflexões sobre a condição humana.
“O Prêmio Camões simboliza a riqueza da nossa língua comum e o compromisso permanente do Brasil e dos países lusófonos com a valorização da cultura, da literatura e do diálogo entre os povos. Celebrar Lídia Jorge é também reconhecer a força transformadora da palavra e da criação artística na construção de sociedades mais democráticas, diversas e humanas”, afirmou a ministra.
O presidente da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), Marco Lucchesi, afirmou que a escritora Lídia Jorge merece todo reconhecimento.
“Ela vive no coração do presente. Aponta para todas as contradições, dentro de uma perspectiva em que a política e a poética mostram-se inseparáveis, muito embora prevaleça, do começo ao fim, a altitude textual, a dinâmica profunda da língua literária. Seu profundo conhecimento da África, sobretudo de Moçambique, de Portugal e dos países de língua portuguesa empresta grande riqueza ao conjunto da obra”.
Lucchesi ressaltou também que Lídia Jorge possui uma consciência vigilante, crítica diante de um passado colonial e de todas as práticas de injustiça, na defesa de um largo estatuto de emancipação. “Uma obra vasta, de extrema riqueza de abordagem e de gêneros literários. É uma das glórias da língua portuguesa”.
A autora
Lídia Jorge nasceu em Boliqueime, Algarve (Portugal), em 18 de junho de 1946. É graduada em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa. No início dos anos 70, durante a Guerra Colonial Portuguesa, viveu em Angola e Moçambique, experiência que marcou sua produção literária.
Seu primeiro romance, O Dia dos Prodígios (1980), inaugurou uma nova fase na literatura portuguesa ao romper com o realismo tradicional e com o tom documental, dominante à época. Suas obras estão traduzidas em diversos idiomas e já receberam prêmios como Prêmio Pessoa, Médicis Étranger e Prêmio Estatal Austríaco de Literatura Europeia. Entre suas principais obras está ainda O Vale da Paixão (1998).
Prêmio Camões
O Prêmio Camões foi instituído em 1988 pelos governos do Brasil e de Portugal. Seu objetivo é estreitar os laços culturais entre as nações que integram a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e enriquecer o patrimônio literário e cultural da língua portuguesa.
Batizado com o nome do poeta português Luís Vaz de Camões, o prêmio é atribuído aos autores que contribuíram para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural da língua portuguesa. A primeira edição ocorreu em 1989.
O diploma entregue aos laureados contém o nome de todos os países lusófonos e é assinado pelos chefes de estado do Brasil e de Portugal. Entre os 36 vencedores encontram-se autores de cinco países lusófonos (Brasil, Portugal, Moçambique, Angola e Cabo Verde).
Conheça os vencedores do Prêmio Camões desde 1989
- Miguel Torga (Portugal),
- João Cabral de Mello Neto (Brasil),
- José Craveirinha (Moçambique),
- Vergílio Ferreira (Portugal),
- Rachel de Queiroz (Brasil),
- Jorge Amado (Brasil),
- José Saramago (Portugal),
- Eduardo Lourenço (Portugal),
- Pepetela (Angola),
- António Cândido (Brasil),
- Sophia de Mello Breyner Andresen (Portugal),
- Autran Dourado (Brasil),
- Eugénio de Andrade (Portugal),
- Maria Velho da Costa (Portugal),
- Rubem Fonseca (Brasil),
- Agustina Bessa-Luís (Portugal),
- Lygia Fagundes Telles (Brasil),
- Luandino Vieira - recusado (Angola),
- António Lobo Antunes (Portugal),
- João Ubaldo Ribeiro (Brasil),
- Arménio Vieira (Cabo Verde),
- Ferreira Gullar (Brasil),
- Manuel António Pina (Portugal),
- Dalton Trevisan (Brasil),
- Mia Couto (Moçambique),
- Alberto da Costa e Silva (Brasil),
- Hélia Correia (Portugal),
- Radouan Nassar (Brasil),
- Manuel Alegre (Portugal),
- Germano Almeida (Cabo Verde),
- Chico Buarque (Brasil),
- Vítor de Aguiar e Silva (Portugal),
- Paulina Chiziane (Moçambique),
- Silviano Santiago (Brasil),
- João Barrento (Portugal),
- Adélia Prado (Brasil),
- Ana Paula Tavares (Angola),
- Lídia Jorge (Portugal).

