Quando a chuva finalmente dá uma trégua em Santarém, no Pará, os clientes começam a aparecer na Boto Gelato, estabelecimento na região central que vende sorvetes artesanais à base de produtos da Amazônia.
É maio, época popularmente conhecida como inverno na Região Norte, por causa das tempestades frequentes e sensações térmicas mais amenas.
A gerente comercial Eloísa Bento trabalha do outro lado da cidade, mas é uma das que não perdem a chance de comprar uma casquinha quando o tempo permite.
“Tem muito sabor artificial por aí. Só aqui tem sabores bem regionais, que trazem memórias de infância. Você prova o cupuaçu e lembra de quando era criança, cortava a fruta, chupava o caroço. O açaí também. Qual paraense não gosta de açaí? E o sabor daqui é o da fruta de verdade”, explica Eloísa.
No balcão, estão outras opções com frutos, castanhas, farinhas e uma variedade de elementos naturais amazônicos.
O Treme Treme, por exemplo, mistura maracujá, pimenta, cupuaçu e jambu. Leva esse nome pela sensação de ardência que provoca na boca. O Carimbó, que homenageia a música e a dança tradicional da região, tem tapioca, doce de cupuaçu, flocos de coco, nibs de cacau e castanha-do-pará.
O inventor dos sabores é Tiago Silva, empresário formado em engenharia de produção, que abriu o negócio em 2016. As receitas são criadas a partir das técnicas que ele adquiriu em anos de estudo no país e fora dele.
“O gelato tem a preocupação de ser um produto mais artesanal, com ingredientes frescos. Então, posso oferecer textura, sabor, viscosidade, cremosidade, derretimento, o que faz toda a diferença no sabor do produto”, detalha Tiago.
“Gosto muito de observar a reação das pessoas que não são habituadas com os sabores daqui. E aí, quando elas provam um gelato com castanha-do-pará, é sempre: ‘Meu Deus, não é que é bom?’. Como assim, ‘bom’? Isso aqui é ótimo, é melhor do que pistache”, brinca.
A comparação entre o pistache e a castanha-do-pará é emblemática quando se pensa na valorização dos produtos e da bioeconomia da Amazônia.
Sobremesas à base de pistache tornaram-se comuns no Brasil nos últimos anos, mas levam um ingrediente essencialmente estrangeiro. O país importa 100% do que consome, a maior parte vinda dos Estados Unidos (mais de mil toneladas ou 86% do volume total importado).
Os dados são de 2024, do World Integrated Trade Solution (WITS), uma plataforma do Banco Mundial.
A castanha-do-pará, também chamada de castanha-do-brasil, é um produto típico da Amazônia. Acre, Amazonas e Pará responderam por cerca de 80% da produção nacional divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE) em 2024. Em números absolutos, foram mais de 30 mil toneladas, segundo o levantamento Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura (Pevs).
>> O programa Caminhos da Reportagem leva ao ar na próxima segunda-feira (06) o episódio "Bioeconomia no coração da Amazônia" a partir das 23h, na TV Brasil.
Cadeia produtiva
Com a ajuda do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), o empresário entendeu que, para criar um negócio com presença local forte, precisava colocar a Amazônia em evidência. Isso incluía destacar elementos regionais da cultura e da biodiversidade na identidade do empreendimento.
O boto, que dá nome à marca, é presença constante na orla de Santarém, tanto da espécie cor-de-rosa quanto da tucuxi (cinza). Também é símbolo da Festa do Sairé, que ocorre todo ano em Alter do Chão, distrito de Santarém. Dois grupos, o Boto Tucuxi e o Boto Cor-de-Rosa, duelam no Sairódromo, narrando histórias locais e rituais indígenas.
Seria difícil sustentar todos esses conceitos, se não houvesse integração real do negócio com uma cadeia econômica de produção e comercialização das matérias-primas. O dono da gelateria garante ter como abastecimento prioritário as feiras e os pequenos produtores da região.
“Nós vamos à feira, em média, uma vez por semana. Pegamos os produtos em grandes quantidades e os congelamos”, explica Tiago.
“Uma coisa que a gente preza muito é entender a cadeia da bioeconomia, que movimenta produtores e revendedores. Não temos uma rotatividade de fornecedores. Mantemos uma relação de fidelidade com quem conhecemos. Nós os apoiamos e eles nos apoiam”, completa.
O mercado foi criado em 1985 e fica em frente à orla de Santarém, a poucos metros do Rio Tapajós e da área portuária. Ganhou “2000” no nome para representar o novo século que se aproximava e, com ele, expectativas de renovação e modernidade.