Ninguém avisou aos fãs que a estreia de Avatar Aang: O Último Mestre do Ar viria acompanhada de um enredo paralelo, digno da própria trama: dias antes do lançamento oficial, o filme inteiro vazou na internet. A equipe de produção correu para condenar publicamente o vazamento, enquanto uma legião de espectadores aproveitava para pressionar a Paramount a reconsiderar o plano original, que previa apenas uma exibição limitada na Comic-Con de San Diego e em dois cinemas, um em Los Angeles e outro em Nova York, antes do desembarque mundial no Paramount+. O barulho em torno do incidente talvez diga mais sobre o carinho que o público ainda nutre pela franquia do que qualquer trailer poderia.
Passados treze anos da derrota do Senhor do Fogo Ozai, acontecimento que encerrou a série original, exibida entre 2005 e 2008, o novo longa encontra Aang em um momento estranho da própria vitória. A guerra acabou, as nações se reconstroem, os amigos seguem ao seu lado. Só que ele continua sendo o único dobrador de ar vivo, e essa solidão específica não desaparece só porque o mundo está em paz.
Um trauma que não se resolve sozinho
Foi exatamente esse ângulo que atraiu a diretora Lauren Montgomery, que trabalhou como artista de storyboard na série original e como produtora supervisora em A Lenda de Korra antes de assumir o comando do longa. Em entrevista ao Estadão, ela explicou que a série sempre tratou da jornada de Aang para se tornar o Avatar que já era por natureza, tocando de leve na perda de seu povo sem nunca cobrar dele o processamento real daquele luto.
"As coisas que a gente não enfrenta não desaparecem com o tempo. Elas ficam guardadas e voltam quando menos se espera", disse Montgomery. Segundo ela, o filme nasce dessa constatação: mesmo cercado por uma comunidade que se reergue ao seu redor, Aang segue sendo o último representante de uma cultura que não pode simplesmente ser reconstruída, e a equipe quis investigar o que esse peso específico faz a uma pessoa, mesmo sendo essa pessoa o Avatar.
A busca por Tagah, dobrador de ar sobrevivente vivido por Dave Bautista, e por um bastão capaz de trazer de volta os Nômades do Ar, funciona menos como MacGuffin de aventura e mais como pretexto para essa reflexão mais silenciosa sobre luto, identidade e pertencimento.
Encontrar semelhanças em vez de motivos para brigar
Já Eric Nam, cantor e ator coreano-americano que empresta a voz a um Aang mais maduro, prefere puxar o fio da história para o presente. Para o ator, a mensagem do filme chega em um momento particularmente oportuno. "Vivemos em um mundo tão dividido, e acho que as redes sociais e os algoritmos tornam fácil demais nos enfurecermos uns com os outros, quando na verdade somos muito mais parecidos do que diferentes", diz. Segundo ele, encontrar motivos para se unir e celebrar é algo de que o público precisa e é também o que sustenta os fãs de Avatar há vinte anos, entre amizades dentro da trama e comunidade fora dela.
Montgomery reforça o ponto, mas prefere levá-lo para uma escala mais pessoal: quer que o filme funcione como um lembrete simples de que problemas de saúde mental, estresse ou qualquer angústia que pese demais merecem ajuda - de amigos, de quem estiver por perto. É basicamente o arco de Aang resumido em conselho: por mais que a comunidade o cerque, é só quando os amigos se juntam de verdade que ele encontra forças para seguir enfrentando aquela fome antiga, sem que ela o abandone por completo, mas impedindo que o paralise.
"Se você está lutando com alguma coisa, com sua saúde mental, com qualquer coisa que esteja te causando estresse, procure ajuda, chame seus amigos, encontre um jeito de processar isso. Você nunca está sozinho", resumiu a diretora.

