'Casas portuguesas, com certeza': como a experiência do fado se preserva em SP

Postas de bacalhau, garrafas de vinho e os cheirosos pastéis de nata são presenças indispensáveis em qualquer estabelecimento que se proponha a criar uma conexão com Portugal. Mas a experiência portuguesa não parece estar plenamente completa sem o som do fado, gênero desenvolvido nas ruas, entre marinheiros, trabalhadores e boêmios, longe da realeza, a partir de Lisboa no fim do século 19 e que virou Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco.

Muito distante das vielas da Mouraria e das paisagens históricas de Alfama é possível vivenciar a beleza do fado ao vivo em São Paulo. Embora a oferta seja restrita e concentrada em poucos endereços da cidade, o gênero se preserva na capital paulista graças a uma engrenagem composta por um grupo seleto de empresários do setor gastronômico, cantoras e instrumentistas, bem como, ora pois, um público formado majoritariamente por descendentes lusitanos.

O Estadão ouviu as fadistas de maior destaque na cena paulistana. Em comum entre elas, há o canto dramático, quase chorado, acompanhado pelo timbre metálico e cristalino da guitarra portuguesa, ancorado no legado de Amália Rodrigues (1920-1999), responsável por revolucionar o gênero. "Fado não se canta, se sente", elas dizem, citando uma frase atribuída à Rainha do Fado, enquanto interpretam letras que tratam de temas como saudade, destino, solidão, amor e perda.

A reportagem também visitou três casas portuguesas que, apesar das diferenças de estilo, se assemelham no compromisso de fomentar o fado com maior regularidade. Outros restaurantes, como Alfama dos Marinheiros, Dona Florinda, A Casa do Peixe, Cais do Porto, Rancho Português 53 e a tradicional Casa de Portugal, também promovem apresentações, mas de forma mais esporádica.

Saiba mais sobre cada um dos lugares visitados abaixo.

Quinta do Olivardo

Onde fica: R. Ferreira de Araújo, 332 - Pinheiros - Terça a domingo, das 12h às 22h30

O empresário Olivardo Saqui tem uma notável história de superação. Nascido no Paraná e filho de um bóia-fria, o mais velho de sete irmãos precisou abandonar cedo os estudos para ajudar no sustento da família. Começou a trabalhar em uma vinícola em São Roque (SP), mas viu a empresa fechar as portas. Desempregado, com três filhos, enfrentou um período de depressão.

A volta por cima veio quando ele ouviu uma frase motivacional de Ana Maria Braga no Mais Você. Decidiu, então, cultivar uvas e produzir os próprios vinhos e sucos. Influenciado pela mulher, de origem portuguesa, passou a servir também pratos típicos lusitanos. Assim nasceu a Quinta do Olivardo, sucesso turístico há mais de 15 anos em São Roque, que recebe cerca de 5 mil visitantes a cada fim de semana e reúne hospedagem, fazendinha e uma ampla estrutura gastronômica.

"O nosso diferencial está na experiência. Não é apenas a gastronomia, mas a oportunidade de reviver tradições, inclusive com o fado e eventos que celebram a antiga história portuguesa", diz Olivardo, figura recorrente em programas de TV comandados por Edu Guedes, Ronnie Von e pela própria Ana Maria Braga.

Ele acaba de inaugurar uma unidade na capital onde o fado é apresentado quinzenalmente em sistema de revezamento com a matriz de São Roque. O espaço decorado com as famosas louças portuguesas tem se notabilizado por ser destino de celebrações familiares. Em uma das noites de apresentação, por exemplo, um casal comemorava 45 anos de matrimônio, enquanto outra família, formada por oito integrantes, festejava um aniversário - todos entusiasmados com a voz de Ana Carla Lemos.

Oriunda do distrito de Viseu, na antiga província da Beira Alta, em Portugal, Ana Carla chegou ao Brasil aos 8 anos e começou a cantar em Santos, integrando um grupo folclórico português. Em 2018, passou a se dedicar ao fado de forma profissional. Hoje, conduz um espetáculo animado, cujo repertório inclui, além dos clássicos, temas brasileiros e sucessos da música popular portuguesa, entre eles o dançante Arrebita, de Roberto Leal (1951-2019).

"Em Lisboa, você vai a uma casa de fado para ouvir fado. O jantar é consequência. Aqui é o contrário: as pessoas vão ao restaurante para jantar e se reunir e o fado é um complemento. Por isso, não posso cantar apenas os fados mais castiços, porque as pessoas acabam dispersando a atenção", explica a fadista.

Ela cita como principais influências, além de Amália, Hermínia Silva, Lucília do Carmo e, entre as representantes da geração mais recente, Carminho, grande voz do fado contemporâneo, que se apresentará nos dias 24 e 25 de agosto no Teatro Cultura Artística, também em São Paulo.

"A Carminho disse algo que faz muito sentido para mim: o fado e o samba falam praticamente dos mesmos sentimentos. A diferença é que o fado fala tudo em tom menor e o samba em tom maior. Ambos são música de raiz e que falam de sentimentos do nosso cotidiano", avalia Ana Carla.

Olivardo afirma que há uma grande demanda por shows do gênero. "Fico muito emocionado quando um filho traz a mãe portuguesa ou o neto traz a avó e me agradecem porque desde que vieram ao Brasil nunca mais tiveram a oportunidade de ouvir um bom fado", conta.

Fado & Bossa

Onde fica: R. Fradique Coutinho, 1340 - Vila Madalena - Quinta a domingo, das 18h às 22h

"Sou brasileira, mas minha alma é portuguesa", afirma Ciça Marinho. Filha de portugueses, ela começou a cantar fado aos quatro anos e hoje realiza de quatro a cinco apresentações por semana, incluindo compromissos no interior de São Paulo. Já são quase 30 anos no ofício onde ela conheceu seu marido e violonista, Sergio Borges, também um veterano no ramo.

"O fado é algo visceral", explica a cantora. "É preciso sentir o que você canta para poder passar para o público esse sentimento e dar valor às palavras."

Ciça e Sergio lembram que, no início dos anos 2000, o fado despertava enorme interesse no Brasil, especialmente em São Paulo e no Rio de Janeiro. A sensação do casal, porém, é de que as novas gerações de descendentes de portugueses não deram continuidade ao trabalho de preservação do estilo iniciado por seus pais. Eles também lembram que, embora o fado já tenha sido visto como algo "cafona" em Portugal, hoje é um importante atrativo para o turismo do país europeu.

Os artistas conversaram com a reportagem antes de um recital intimista na recém-inaugurada casa Fado & Bossa. O lugar de estética elegante foi fundado há três meses pela chef e empreendedora Ana de Assis, neta de português, especializada na cozinha lusitana e premiada por sua lasanha de bacalhau.

Ana quis criar um espaço que, como o nome sugere, faz uma mescla das culturas brasileira e portuguesa. Essa simbiose se reflete no cardápio, que prioriza porções individuais em vez dos fartíssimos pratos portugueses, e também na programação musical: a proposta é que o fado tenha apresentações quinzenais, em revezamento com atos de bossa nova.

A iniciativa dialoga com a intensa atuação da chef na preservação da cultura lusitana no Brasil. Colaboradora do podcast Roda Roda Vira, dedicado à comunidade de origem portuguesa no País, ela tornou o restaurante palco das gravações do programa, que é transmitido ao vivo, todas as segundas-feiras, com a missão de valorizar a herança cultural entre as duas nações.

Taberna Portucale

Onde fica: R. Cantagalo, 856 - Tatuapé - Segunda a sábado, das 12h às 22h, domingo até 16h

Uma pequena casa na zona leste abriga um verdadeiro pedaço de Portugal. Rústico e decorado com camisas da seleção portuguesa, faixas do Benfica e uma TV que exibe as paisagens do país, o local reforça a identidade lusitana em cada canto. Até a placa da "casa de banho", em vez de "banheiro", contribui para transportar o cliente para o Velho Continente.

O empreendimento nasceu em 2017, cinco anos depois de o português Alberto Simões deixar a região de Aveiro para recomeçar a vida no Brasil. Ele desembarcou no País quando Portugal atravessava uma grave crise econômica, marcada pelo desemprego em alta e pela retração do comércio. Aqui, decidiu reproduzir o conceito da taverna, uma mistura entre a tasca - equivalente ao boteco - e o restaurante.

"Em Portugal, a taverna é um espaço de convivência. As pessoas vão para conversar sobre futebol, política, encontrar amigos e familiares. Muitos negócios são fechados em tavernas. Quando cheguei ao Brasil, não conhecia casas com essa proposta", conta o chef, que quase não sai da cozinha e divide o comando do comércio com sua mulher, a brasileira Célia Simões.

O casal tem apostado em noites de fado realizadas semana sim, semana não, revezando cantoras e alternando repertórios mais melancólicos com outros mais alegres, que tendem a agradar mais aos brasileiros. Mas o grande diferencial da casa está na forma como o espetáculo é apresentado. Quando a fadista começa a cantar, as luzes são reduzidas e o salão mergulha em silêncio absoluto, numa tentativa de reproduzir o ambiente das autênticas casas de fado, com reverência parecida à de uma peça teatral.

A ideia tem sido bem recebida pela comunidade portuguesa do Tatuapé. Um dos frequentadores é Mario Muniz, de 61 anos, que desembarcou no Brasil quando era menino. "A vida de todo imigrante é muito difícil, e o fado nos toca justamente por abordar esse sentimento de sofrimento e melancolia", afirma.

A cantora Letícia Ferreira, que fazia um show quando o Estadão visitou o espaço, diz que Nem às Paredes Confesso, Uma Casa Portuguesa e Ai Mouraria são canções que não podem faltar em seu repertório. A favorita dela, no entanto, é Ó Gente da Minha Terra, escrita por Amália, embora tenha sido gravada por Mariza.

Letícia descobriu sua terra na pandemia. Neta de portugueses, mas sem contato com a família paterna, ela começou a pesquisar sua árvore genealógica durante o isolamento provocado pela covid-19 e, nesse processo, conheceu o fado e encontrou sua vocação como cantora. Hoje, ela também integra a diretoria da Casa de Portugal.

"Sempre fui uma criança melancólica, nunca compreendi muito bem aquele sentimento de vazio causado pela ausência da família paterna", confessa a fadista. "O fado preencheu essa lacuna e encontrei uma nova família dentro desta comunidade. A própria palavra fado significa destino. E esse destino já estava traçado para mim", finaliza.