Ronnie Lessa diz que estava 'ansioso' para matar Marielle Franco

Ex-PM revelou detalhes da execução da vereadora e afirmou que receberia US$ 10 milhões pelo crime, em entrevista à TV Record

Lessa deu entrevista de dentro do Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília
Lessa deu entrevista de dentro do Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília -
Rio - O ex-PM Ronnie Lessa confirmou que estava ansioso para matar a vereadora Marielle Franco e revelou detalhes sobre a execução da parlamentar, em 2018. A declaração foi dada em entrevista à TV Record, exibida nesta quinta-feira (28). Ele cumpre pena no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília.
"Eu estava cego. É horrível, hoje eu penso dessa forma, mas eu estava cego, overdose de ganância, ambição, dinheiro", disse em um trecho.

Lessa afirmou que receberia uma quantia milionária pela morte da parlamentar. "Eu não fui contratado para matar a Marielle como um assassino de aluguel, eu fui chamado para uma sociedade, haveria uma implantação de uma milícia. Ninguém recebe uma proposta de receber 10 milhões de dólares simplesmente para matar uma pessoa, uma coisa assim é impactante realmente", declarou.

Em outro trecho da entrevista, o ex-PM alegou que nunca havia matado inocentes antes da execução que também terminou na morte do motorista Anderson Gomes.

"Eu não servia a bicheiro, nunca matei ninguém para bicheiro nenhum, eu não trabalhei para o crime diretamente, eu não matei inocente. A única vez que matei inocente foi a Marielle e o Anderson, eu posso cuspir pro alto mediante a isso", acrescentou.

Lessa detalhou ainda a perseguição à vereadora. "Como eu não tenho a perna esquerda, eu não consigo dirigir carro que tenha embreagem, então o Elcio veio, subimos o Alto da Boa Vista e chegamos no local onde ela ia dar uma palestra. Eu puxei o banco todo para trás para me dar uma visibilidade maior, a mobilidade para qualquer um dos lados, tanto na esquerda quanto na direita, eu atiro para os dois lados", relatou.

Na sequência, ele descreveu o momento em que efetuou os disparos contra o carro de Marielle. "O cara (Anderson) andava rápido demais e o Élcio estava acelerando, parecia que ele tinha percebido, mas eu falei que não tinha como ele perceber e falei pro Elcio continuar. Aí ele parou no sinal e eu falei para o Élcio parar do lado. Eu estava com uma supermetralhadora e falei: ‘É agora’. O Élcio emparelhou o carro e eu disparei, mas o Élcio não parou. Eu estava louco para fazer, mas, quando eu fiz, o choque de realidade veio instantâneo, ainda dentro do carro", contou.

Após os disparos, Élcio e Lessa seguiram para um bar, onde, segundo ele, souberam da morte de Anderson.

"Minha fuga era a bebida (...) O garçom trouxe a imagem que tinha matado um pessoal morto no Centro, foi quando eu soube do Anderson que eu comecei a beber compulsivamente", destacou.

Mandantes

Lessa também abordou sua relação com Domingos Brazão, apontado como um dos mandantes do assassinato de Marielle. Segundo o ex-PM, Brazão teria apresentado a ele a motivação para a execução e oferecido uma recompensa milionária.

"O Domingos falou que ela não ia deixar a gente colocar o condomínio lá e, se soubesse que a gente fez, ela ia babar, então ela tinha que sumir. Eu ia ganhar R$ 25 milhões, 250 lotes de 100 mil, e aí eu balancei. Eu ouvi desde a primeira vez que a polícia estava comprada. Inclusive, quando já tinha dado problema, ele falava que o Rivaldo Barbosa tinha que dar o jeito dele e eu soube que tinha dado ruim quando o Rivaldo pulou fora", afirmou.

Ele afirmou ainda que chegou a ser procurado para matar o ex-deputado Marcelo Freixo, mas recusou a proposta. "Eu disse que não tinha como, o cara anda com uns 20 segurança", disse.

Entrada na PM

Ao relembrar o início da carreira, Lessa explicou o que o motivou a ingressar na Polícia Militar e fez críticas à própria instituição.

"Eu tinha vocação, um sonho, meu pai era amigo de muito polícia, eu via muita arma, eu escutava meus comentários. Quando eu fiz meu concurso, com 19 anos de idade, eu queria virar um herói, mas a própria instituição te obriga a entrar na ilegalidade, porque você está combatendo o crime o dia inteiro e não tem uma para a sua folga, então você tinha que ter uma arma fria", acrescentou.

Lessa também relembrou sua passagem pelo Bope e afirmou que mortes durante operações eram tratadas como algo corriqueiro na época. 

"Minha primeira morte foi no Bope. O que eu senti foi dever cumprido. Foram dois no mesmo dia, no Morro da Mineira, no Estácio. Hoje, quando alguém fala que morreram 30 na operação, isso era mais que normal, era toda semana, é porque hoje é muito divulgado com as medidas. A polícia pode matar e até deve. Eu já matei muita gente, não posso precisar números, mas, em 20 anos trabalhando no RJ, eu não matei mil pessoas. Mas é muito provável que eu tenha participado de operações que, se somadas, em 20 anos, mil é pouco", frisou.

Ao final, ele afirmou que sua reputação não era uma característica isolada. "Eu sempre tive essa fama de matador, porque eu matava muito bandido, eu só tive escala no Bope. Quando eu saí, eu trabalhava o dia que eu quisesse, todos os comandantes me davam esse poder. Lessa era matador da polícia, mas não era só o Lessa, era a polícia toda".
Condenação
No início do mês, Justiça do Rio aumentou as penas de Ronnie Lessa e de Élcio de Queiroz.  Com a decisão, o ex-PM teve a pena elevada de 78 anos e nove meses para 81 anos e 10 meses, enquanto Queiroz passou de 59 anos e oito meses para 76 anos e seis meses.
Os dois foram condenados pelo IV Tribunal do Júri da Capital, em outubro de 2024. Eles respondem pelos crimes de duplo homicídio triplamente qualificado, tentativa de homicídio e receptação.
Desde que o caso aconteceu, as investigações sobre a morte de Marielle passaram por várias instâncias da segurança pública no Rio, com trocas de delegados responsáveis pela Delegacias de Homicídios (DH). 
Entre os réus no processo está o ex-delegado Rivaldo Barbosa, condenado a 18 anos pelos crimes de obstrução de justiça e corrupção. Ele foi absolvido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) de ter planejado matar Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes. Na época do crime, ele era chefe da Polícia Civil do Rio. Antes disso, comandou a Divisão de Homicídios.
Os últimos episódios desses mais de seis anos sem resposta também foi a prisão dos irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, apontados por Lessa como mandantes do assassinato da vereadora.
O crime teria sido encomendado pelos irmãos, réus desde junho em processo que também apura a morte da vereadora e do motorista. Segundo investigação da Procuradoria Geral da República (PGR), o assassinato de Marielle seria uma maneira de frear os embates da parlamentar contra loteamentos clandestinos de terras na Zona Oeste.
A vereadora teria sido contra uma série de projetos de lei que favoreciam ao clã Brazão. Os irmãos possuíam interesse econômico direto na aprovação das normas legais que facilitassem a regularização, uso e ocupação do solo na Zona Oeste, que inclui áreas dominadas pela milícia.
Relembre o caso
Marielle foi assassinada na noite de 14 de março de 2018, no bairro do Estácio, Região Central do Rio. A parlamentar, que estava acompanhada do motorista Anderson Gomes, de 39 anos, e da assessora Fernanda Chaves, de 43, voltavam de um evento de mulheres negras na Rua dos Inválidos, na Lapa.

O carro onde Marielle estava passava pela Rua Joaquim Palhares, próximo a Praça da Bandeira, quando um automóvel, modelo Chevrolet Cobalt, na cor prata, emparelhou com seu veículo. Em seguida, foram feitos nove disparos. Quatro deles atingiram Marielle, sendo três na cabeça e um no pescoço. Já Anderson foi atingido por três disparos nas costas. Ambos morreram dentro do carro. A assessora ficou ferida por estilhaços.