Moraes editou contrato entre o escritório de sua mulher e Daniel Vorcaro

De acordo com a empresa de Viviane Moraes, análise de ministro do STF para possíveis impedimentos legais em documentos é 'praxe'

Ministro do STF Alexandre de Moraes e a mulher Viviane Barci
Ministro do STF Alexandre de Moraes e a mulher Viviane Barci -
Rio  - O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes teria editado o contrato de R$ 131 milhões entre o escritório de sua mulher Viviane Moraes e o ex-banqueiro e dono do Banco Master Daniel Vorcaro. As revelações foram feitas pelo O Estado de S. Paulo nesta terça-feira (1°).
Confirmado pelo escritório ao DIA, Moraes acessou e editou o documento por pedido do setor de compliance, sobre eventuais impedimentos legais à contratação do Master ao serviço de Viviane Moraes.
Leia a nota:
''Em virtude da abrangência do pedido de contratação de prestação de serviços advocatícios pelo Banco Master ao BARCI DE MORAES, o setor de compliance do escritório, como faz em outros casos semelhantes, solicitou informações ao Ministro Alexandre de Moraes, na condição de marido da sócia diretora do referido escritório, sobre a eventual existência de impedimentos legais para a contratação nos termos propostos na minuta contratual, tais como ações no STF sobre sua relatoria ou mesmo participação em julgamentos de interesse do possível cliente.

Diante da inexistência de previsão de atuação no STF ou de qualquer impedimento legal, uma vez que o Ministro Alexandre de Moraes jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master, o contrato foi assinado e os serviços advocatícios devidamente prestados.'', explica. 
O envio do contrato partiu do celular de Viviane para Daniel, em 11 de janeiro de 2024, às 17h23. Capturas de tela publicadas pelo Estadão mostram trechos da interlocução extraídos do celular do banqueiro, apreendido em novembro de 2025 na primeira fase da Operação Compliance Zero.
''Prezado Daniel, boa tarde. Conforme conversamos, estou enviando minuta de contrato de prestação de serviços para sua análise. Estou à disposição para qualquer esclarecimento. Abraço. Viviane Barci de Moraes”, escreveu.
Após quatro dias, Daniel Vorcaro retornou com o documento revisado.
“Boa noite! Segue o documento preenchido. Foi incluída apenas a cláusula I.3. Por favor, nos indique se está adequada. Caso estejam de acordo, combinamos a assinatura! Um abraço”, escreveu Vorcaro em 15 de janeiro de 2024, às 21h22.
Segundo os metadados do contrato, a devolução devolvida por Vorcaro a Viviane foi aberta e modificada no sistema Office 365 utilizado pelo ministro do STF. O nome que é mostrado informando a modificação é nomeado de ''Ministro Alexandre de Moraes''. Na mesma versão, Guilherme de Toledo Benazzi, administrador do escritório Barci de Moraes, aparece como autor.
O DIA entrou em contato com as defesas de Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes, mas ainda não obteve retorno até o momento. O espaço segue aberto.
Vorcaro pergunta a Moraes se precisa sair do País dois dias antes de ser preso
Dois dias antes de ser preso, Daniel Vorcaro também teria solicitado a Alexandre de Moraes informações sobre a possibilidade de a Polícia Federal (PF) deflagrar a primeira fase da Operação Compliance Zero e sobre qual estratégia deveria adotar diante de uma eventual ordem de prisão preventiva. As mensagens foram divulgadas pelo O Estado de S. Paulo nesta terça-feira (1º).

Em 15 de novembro de 2025, Vorcaro perguntou ao ministro se deveria deixar o país: "Acha que segunda já tenho que estar fora?". Na mesma conversa, questionou se o juiz Ricardo Augusto Soares Leite, da 10ª Vara Federal do Distrito Federal, seria o responsável pela decisão e se Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, tinha conhecimento da situação. Também perguntou: "Conseguimos fazer algo?".

No dia seguinte, véspera da prisão, o banqueiro voltou a procurar Moraes. "Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?", escreveu.

As mensagens indicam ainda que Vorcaro tentou marcar um encontro com o ministro. "Às 14h então, na sua casa ou na minha?", escreveu. Na sequência, demonstrou preocupação com os possíveis efeitos da operação sobre seus negócios.

"Muita sacanagem isso. Estou perplexo e indignado. Esses caras vão destruir todo o negócio e sem volta. De repente até melhor eu encarar de frente. Temos que dar um jeito de desarmar isso meu Deus", afirmou.

Na noite de 17 de novembro, Vorcaro foi preso pela PF no Aeroporto Internacional de São Paulo enquanto tentava embarcar em um jato particular com destino a Malta e, depois, Dubai. Segundo as investigações, ele buscava deixar o país para evitar a prisão.

A ordem de prisão preventiva foi assinada naquele mesmo dia, às 15h29, pelo juiz Ricardo Augusto Soares Leite.

As conversas foram recuperadas pela PF a partir do celular de Vorcaro e fazem parte de um relatório encaminhado ao STF. Como as mensagens enviadas por Moraes eram configuradas para visualização única, a perícia não conseguiu recuperar o conteúdo das respostas do ministro. 
André Mendonça, minsitro do STF, afirmou em decisão proferida nesta terça-feira (1º), que os novos elementos trazidos pela Polícia Federal (PF) na investigação sobre o Banco Master devem ser analisados pelo plenário da Corte. Além disso, ele ressaltou que a deliberação deverá ser tomada em sessão presencial, "de forma pública e transparente", em data a ser definida pelo presidente do Supremo, Edson Fachin.

O material foi encaminhado para manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR) pelo ministro André Mendonça, que retirou o sigilo dos documentos. A PF aponta que os diálogos indicam que Vorcaro tinha acesso antecipado a informações sobre o andamento da Operação Compliance Zero.
Políticos se manifestam após acusações contra Moraes 
O governador de São Paulo e candidato à reeleição, Tarcísio de Freitas (Republicanos), classificou como "grave" a informação divulgada pelo Estadão de que Alexandre de Moraes teria editado a versão final do contrato de R$ 131 milhões entre o escritório de sua mulher, Viviane Barci de Moraes, e o Banco Master. Para Tarcísio, o caso deve passar por uma "apuração rigorosa".

"É grave o que está aparecendo, o que o Estadão revela. Entendo que isso tem que ser investigado. [...] Tudo isso tem que ser passado a limpo, tem que ficar às claras", afirmou durante uma visita a um hospital na capital paulista.

Já o candidato do Novo à Presidência, Romeu Zema, adotou um tom mais duro ao comentar o caso. Em uma publicação no X, ele acusou Moraes de ter editado o contrato e também fez referência a supostos contatos do ministro com autoridades em favor de Vorcaro.

Zema ainda lembrou que protocolou um pedido de impeachment contra Moraes, em março deste ano, quando ainda era governador de Minas Gerais. Ao final da publicação, defendeu a prisão do ministro e a devolução dos valores envolvidos.

O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) também defendeu a saída de Moraes do Supremo. Ao chegar ao Senado nesta terça-feira, ele afirmou que o ministro deveria renunciar ao cargo por causa de sua relação profissional anterior com Vorcaro.

"O Alexandre de Moraes tinha de renunciar ao Supremo Tribunal Federal. Não tem melhor condição dele continuar sendo ministro do Supremo", declarou.

Flávio também foi questionado sobre o novo pagamento de US$ 1,6 milhão feito por Vorcaro ao fundo Havengate Development, responsável por administrar recursos usados na produção de um filme sobre Jair Bolsonaro. Segundo a revista Piauí, a transferência ocorreu em setembro de 2025, oito dias após o senador cobrar o banqueiro por parcelas atrasadas.

O candidato do Avante à Presidência, Augusto Cury, voltou a defender uma mudança no modelo de composição do STF. Durante visita à Expointer, no Rio Grande do Sul, ele afirmou ser favorável ao fim da vitaliciedade dos ministros da Corte.

"Temos de romper com isso. Eu tenho o respeito de vários ministros do Supremo, mas sou o único que fala isso", disse Cury. Ele defende que os ministros exerçam o cargo por oito anos. 
* Reportagem do estagiário Rodrigo Maciel, sob supervisão de Larissa Amaral