'Se você escrever seguindo as exigências do mercado, não terá nada de valor', diz R.F. Kuang

Após a morte de seu avô, a escritora sino-americana R.F. Kuang, de 30 anos, passou muito tempo em silêncio. Guardava sentimentos difíceis, sentia-se inadequada, arrependida e até mesmo com vergonha, desejando que seu chinês fosse melhor e que pudesse ter tido conversas que não conseguiu ter enquanto ele ainda estava vivo.

Inevitavelmente, acabou retornando à literatura para processar tudo aquilo: "Pensei que deveria simplesmente colocar tudo no papel e encontrar uma maneira de fazer isso ser engraçado, esperançoso e bonito ao mesmo tempo. Um lugar para transformar tudo o que estava carregando dentro de mim em algo novo."

Assim nasceu seu novo romance, História de Taipei, que chega às livrarias nesta terça, 8, pela Intrínseca. A obra é descrita pela autora como seu livro mais introspectivo, depois de se tornar best-seller mundial com Impostora, sátira ácida sobre racismo no mercado editorial, e de ser premiada por obras como Babel ou A Necessidade de Violência e a trilogia A Guerra da Papoula, fantasias inspiradas pela história chinesa.

Agora, Kuang narra os dias de Lily, uma jovem americana filha de imigrantes chineses, durante um intercâmbio em Taiwan, onde ela é aceita em um concorrido programa universitário de estudo intensivo de chinês. As coisas não demoram a sair dos trilhos e sofrem um ponto de virada ainda maior quando Lily perde o avô, que ainda vivia na China continental.

A trama é, claro, inspirada pela experiência da autora, que morou em Taipei por alguns meses em 2023. "Há uma grande parte de mim nas vozes de todos os meus personagens e, geralmente, deixo que aspectos dos quais não me orgulho muito se destaquem", explica ela.

Lily é, de certa forma, uma versão exagerada de Kuang quando mais nova - ela tem 30 anos e sua protagonista, 19. "Eu queria explorar essa confusão e também essa arrogância", diz. "Estava escrevendo na voz de uma caloura universitária realmente boba e ingênua. Cheia de conhecimento acadêmico, mas, fora isso, socialmente idiota."

Para Kuang, tudo isso entra em combustão quando Lily precisa passar meses em um contexto completamente novo. Por conta de seu contexto social, Lily carrega consigo muito do que a autora chama de "pontos cegos culturais e suposições arrogantes sobre história, geopolítica e como tudo funciona".

"Achei essa voz produtiva porque já fui adolescente. Já estive na faculdade e achava que entendia tudo. Acontece que eu não entendia absolutamente nada sobre o mundo", explica. "Aos poucos, ao longo do livro, Lily é repetidamente levada a reconhecer suas limitações até perceber que tem muito mais a aprender."

'História de Taipei' explora busca por identidade na história familiar

A certa altura de História de Taipei, Lily se recorda de experiências em restaurantes chineses nos Estados Unidos: falando em mandarim, pedia uma mesa para ela e os amigos, olhava o cardápio e decorava os pratos que todos desejavam e fazia ela mesma o pedido, abusando do seu conhecimento do idioma.

Isso lhe rendia grande respeito. Os amigos a olhavam admirados. O garçom falava somente com ela. Até que começavam as modificações nos pratos, as perguntas sobre o nível de pimenta, dúvidas sobre alergias. Qual era mesmo o termo para "amendoim"? Lily não se lembrava, e tudo ia por água abaixo.

"No instante em que eu voltava a usar o inglês, o garçom me lançava um olhar de quem entendia tudo. E então o restante do pedido acontecia em inglês, e eu afundava na minha cadeira, tendo a minha autoridade diminuída - eu me lembraria, já tarde demais. Amendoim era, lógico, dã. Eu poderia voltar ao chinês com pedidos como 'água', 'mais chá' ou 'a conta'. Mas não faria sentido algum. Já haviam me desmascarado", diz a narradora.

A anedota de Lily é uma de muitas que Kuang usa para destrinchar a experiência dos filhos da diáspora, dessa geração de filhos de imigrantes que veem sua identidade dividida entre dois mundos. Quando a protagonista tenta cruzar essa ponte ao conversar com a mãe, descobre que isso não será tão fácil quanto imaginava.

"Muitos de nós sentimos que é importante nos conectarmos e compreendermos plenamente nossa história familiar. Mas também acho que existe uma certa sensação de termos direito a isso. Há essa suposição de que, se você aprender o idioma e fizer as perguntas certas, será recompensado por isso e todos ficarão empolgados em passar adiante todas as histórias de sofrimento e dificuldades", afirma Kuang.

Há casos em que isso será verdade, diz ela. Projetos lindos nascerão para documentar e honrar histórias familiares. Mas o oposto também é real. Ela queria ser honesta sobre a possibilidade de que, às vezes, uma família não quer se abrir. Muitas vezes, as pessoas não querem falar sobre um evento traumático.

"Lily quer todas as respostas porque sente que isso faz parte da sua identidade e que conhecer essas respostas é necessário para a sua vida. E todas as pessoas com quem ela está conversando estão contestando isso. E elas dizem: 'Na verdade, não, não é. Você nunca pensou nisso antes. E não há motivo para você estar pensando nisso agora'", explica.

Fuga das expectativas do mercado editorial

Kuang não nega sentir certo nervosismo ao lançar um livro novo, especialmente um tão diferente de suas obras anteriores. Mas diz não deixar isso afetar seu processo criativo: "Se você estiver escrevendo sentindo que tem alguém te vigiando, não vai conseguir escrever nada de bom. E se você começar a escrever de acordo com as exigências do mercado ou com o que acha que o leitor quer e não o que te empolga, então não acho que você esteja escrevendo nada de valor", afirma.

Ela nunca foi de seguir as expectativas do mercado. Estreou na literatura com A Guerra da Papoula, uma alta fantasia inspirada pela Segunda Guerra Sino-Japonesa que começou a escrever quando tinha apenas 19 anos. Depois veio Babel ou a Necessidade de Violência, que explora a história colonial da China na década de 1830 e a Revolução Industrial na Inglaterra com uma trama em que traduzir significa dominar magia.

A escritora surpreendeu quando trocou a fantasia pelo thriller com o polêmico Impostora: Yellowface, livro que discute racismo e apropriação cultural com a história de uma escritora que rouba o manuscrito de uma amiga falecida. Voltou depois com Katabásis, uma crítica aos abusos do sistema acadêmico em que dois estudantes de pós-graduação literalmente descem ao inferno para buscar seu orientador.

"Não penso que tudo faça parte de um grande projeto literário. Mas acho que há questões que surgem repetidamente. Certamente, o fascínio pela linguagem e a adoção de identidades diferentes entre as diversas línguas são uma parte importante. A sensação de ser um estranho ou de não pertencer a uma cultura dominante e tentar encontrar seu lugar dentro dela. Isso é algo que sempre senti ao longo da minha vida. Por isso, transparece na forma como meus personagens se sentem", explica.

O fascínio pela linguagem não é por acaso: Kuang trabalhou como tradutora antes de se dedicar à ficção e é professora de escrita criativa no College of the Holy Cross, nos EUA. Quando questionada sobre o uso de inteligência artificial na atividade do tradutor, ela argumenta: "A tradução não é apenas uma transformação horizontal. É como se novos tons de significado estivessem sendo criados o tempo todo."

"Uma tradução feita por IA pode proporcionar esse movimento horizontal e provavelmente pode fazer um trabalho bom o suficiente, mas superficial, usando padrões retóricos com os quais já estamos muito familiarizados. Mas ela simplesmente não consegue fazer o que uma tradução brilhante é capaz de fazer: trazer uma nova obra de arte ao mundo", explica.

Já há algum tempo, ela também tem se interessado por instituições de elite, por personagens que lutaram a vida inteira para chegar a algum lugar e, de repente, olham ao redor e se perguntam: isso realmente vale a pena? Com o que estou realmente contribuindo para a sociedade? "Acho que História de Taipei é, naturalmente, uma evolução de todas essas questões", afirma.

Certa vez, Kuang disse que gêneros literários eram apenas um conceito criado pelo marketing editorial. "Entendo por que a indústria precisa fazer isso. Mas, obviamente - e todos sabemos disso -, há mais exceções do que livros que seguem estritamente as regras de qualquer gênero", diz ela agora.

"Todo mundo está sempre ultrapassando um pouco os limites e subvertendo as expectativas do gênero. É isso que torna essa evolução dos clichês e das expectativas narrativas tão empolgante. O gênero é apenas uma escada muito útil que você pode jogar fora quando quiser", finaliza.

História de Taipei

Autora: R.F. Kuang

Tradução: Ana Beatriz Omuro e Yonghui Qio

Editora: Intrínseca (336 págs.; R$ 79,90; R$ 54,90 o e-book)