Familiares e amigos se despediram, nesta sexta-feira (18), do pizzaiolo Danilo Jander Francisco Alves, de 25 anos, que morreu após ser baleado por um policial militar durante uma abordagem, em Niterói, na Região Metropolitana. O enterro aconteceu no Cemitério Municipal de São Gonçalo.
Durante o velório, quatro viaturas da Polícia Militar, com agentes armados com fuzis, chegaram a ficar no entorno do cemitério, localizado na Rua Francisco Portela, no bairro Camarão. Mais PMs acompanharam motoboys, que fizeram uma homenagem por ruas do município até o local. De acordo com relatos de familiares, ocorreram confusões, com uso de sprays de pimenta por parte dos agentes, no trajeto.
Motoboys realizam motociata no bairro Gradim, em São Gonçalo, como homenagem a pizzaiolo morto por policial militar durante abordagem.
Motoboys realizam motociata no bairro Gradim, em São Gonçalo, como homenagem a pizzaiolo morto por policial militar durante abordagem.
— Jornal O Dia (@jornalodia) September 18, 2026
Crédito: Arquivo Pessoal pic.twitter.com/GmCjmIAWGS
Ao O DIA, o militar da Marinha, Douglas William Alves, de 47 anos, tio de Danilo, afirmou que a família não recebeu apoio da PM. Ele pediu ainda a exclusão do policial militar dos quadros da corporação.
"A sensação é de você estar sem a proteção de quem deveria lhe proteger. A gente jamais vai imaginar que vai ser assassinado por um agente que tem que prover a sua segurança. É muita dor. É uma inconformidade enorme. Espero justiça, não queremos nada além disso. Queremos o rigor da lei. Esse militar tem que ser excluído das forças, sair das fileiras. Não pode envergar aquela farda que é de pessoas honestas. Aquela farda representa autoridade, confiança e a gente espera que ele seja excluído, que ele responda ao júri popular e que apodreça na cadeia. Ele é um risco à sociedade", destacou.
Segundo o tio, Danilo pode ser definido como um garoto simples, alegre, trabalhador, honesto e família. No momento em que a abordagem aconteceu, o pizzaiolo - que já trabalhou como entregador - estava indo ao trabalho. O crime ocorreu a 200 metros do local.
"Nós ficamos sabendo através de um amigo que correu lá em casa, chamando meu irmão e pedindo para ir ao trabalho dele porque tinha acontecido alguma coisa. No primeiro momento, a gente achou que fosse um acidente de trabalho, como ele trabalhava em cozinha. No segundo momento, a gente achou que fosse um acidente de moto. Só fomos saber do real fato ao chegarmos do hospital", lembrou.
"Nós ficamos sabendo através de um amigo que correu lá em casa, chamando meu irmão e pedindo para ir ao trabalho dele porque tinha acontecido alguma coisa. No primeiro momento, a gente achou que fosse um acidente de trabalho, como ele trabalhava em cozinha. No segundo momento, a gente achou que fosse um acidente de moto. Só fomos saber do real fato ao chegarmos do hospital", lembrou.
Muito emocionado, o pai, Jander Luiz Souza Alves cobrou justiça e a punição dos responsáveis
"Ele foi assassinado. Eu estou calado até agora, direcionei responsabilidade para o meu irmão, porque estou em choque. Estou sem comer, sem dormir, porque a gente já morreu também. A bala pegou no meu filho, pegou aqui, pegou nas famílias, pegou nos amigos, pegou todo mundo. Está todo mundo com a bala na cabeça. Ele deu um tiro na cabeça sem o meu filho oferecer resistência. O garoto parou, tem câmera, todo mundo viu. Em nenhum momento teve aquele arrependimento. Pelo contrário, ele puxa a arma, ele atira Ele guarda a arma, para a moto, posiciona a moto. Não existe arrependimento. Ele é frio, ele calculou, ele executou, ele executou o garoto com tiro na cabeça. Ele sabia muito bem o que estava fazendo. Nunca mais esse cara pode sair da cadeia.", concluiu.
A empresária Rosane Mathias, de 51 anos, tia de Danilo, contou que todos os dias ele ia tomar café com a avó e brincava com ela, a chamando para lanchar.
"É muito difícil imaginar a vida sem ele. É um sentimento de indignação tão grande. Toda vez que vejo o vídeo dele sendo abordado, já com a mão para cima, vejo uma falta de preparo daquele militar. Não falo de todos, porque não quero radicalizar, pois em todas as profissões tem uma laranja podre, mas vejo aquilo ali e toda vez choro. Não tinha necessidade dele matar e tirar o Danilo da gente. Por que ele fez aquilo? Qual é a função do spray de pimenta? Por que um trabalhador tem que passar por isso? Que vida é essa? A gente está lidando com um monstro", comentou.
A vítima foi baleada na cabeça, no último sábado (12), na Rua Mariz e Barros, em Icaraí, na Zona Sul de Niterói. Danilo chegou a ser socorrido pelo Corpo de Bombeiros e encaminhado para o Hospital Estadual Azevedo Lima, na mesma cidade, onde ficou internado em estado grave.
Na terça-feira (15), o pizzaiolo teve a morte encefálica confirmada pela unidade. A família doou seus órgãos.
Prisão em flagrante
Informações iniciais apontam que Danilo teria ultrapassado o sinal vermelho e chegou a empinar a moto. No entanto, relatos de testemunhas e colegas de profissão, afirmam que ele não reagiu à abordagem policial e estava com as mãos levantadas quando foi atingido.
Imagens que circularam nas redes sociais mostraram a movimentação no local logo após o ocorrido e a revolta de outros entregadores. Os vídeos também registraram o momento em que, enquanto a vítima recebia os primeiros socorros, um agente do Niterói Presente usou spray de pimenta para dispersar as pessoas que protestavam.
O PM responsável pelo tiro acabou preso em flagrante. O caso foi registrado na Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSG). Segundo a Polícia Civil, os agentes colheram depoimentos de testemunhas e analisaram câmeras de segurança. A investigação segue em andamento.
A Polícia Militar informou que o procedimento apuratório instaurado sobre o ocorrido segue em curso e que colabora integralmente com os demais procedimentos investigativos.

