Suspeito de transfobia, vereador Rick Azevedo é denunciado por ex-assessores

Político do Rio e candidato a deputado federal é citado em representação que relata suposto assédio moral e várias outras irregularidades durante mandato

Vereador e candidato a deputado federal pelo Rio de Janeiro, Ricardo Azevedo, conhecido como Rick Azevedo
Vereador e candidato a deputado federal pelo Rio de Janeiro, Ricardo Azevedo, conhecido como Rick Azevedo -
Onze ex-assessores do gabinete do vereador e candidato a deputado federal pelo Rio de Janeiro Ricardo Azevedo, conhecido como Rick Azevedo, levaram ao Ministério Público do Trabalho uma representação na qual relatam supostas irregularidades no ambiente de trabalho e pedem a apuração de condutas atribuídas ao parlamentar e a integrantes de sua equipe.
Segundo a representação, os ex-assessores relatam episódios que classificam como abuso de poder, perseguição funcional, desvio de finalidade administrativa, assédio moral, nepotismo e uso da estrutura do gabinete para atividades particulares e eleitorais.
Além dos 11 ex-assessores que apresentaram a representação ao MPT, uma ex-integrante trans do mandato de Rick Azevedo teria relatado, segundo áudio obtido pelo Jornal O DIA, as circunstâncias de sua saída da equipe.

Segundo o relato, a justificativa apresentada para seu desligamento teria sido que ela estava demorando para entregar os trabalhos solicitados e não estaria atendendo às expectativas do vereador.

No áudio, a ex-integrante questiona a justificativa e afirma que a dinâmica de trabalho da equipe não teria sido considerada, assim como sua condição de mulher trans.

“Essa justificativa é bem vazia, é bem rasa porque éramos uma equipe, estava todo mundo fazendo tudo ao mesmo tempo. Trabalhava sábado, domingo, segunda, quarta, quinta, sexta, todo dia. E isso daí não foi levado em consideração em nenhum momento. Nem o fato de eu ser uma pessoa trans no mercado de trabalho foi levado em consideração, sabe? Isso me deixou muito triste. Não que eu poderia entregar qualquer coisa e mesmo assim iriam me empregar, não é sobre isso. É sobre o mínimo de empatia, sabe, que não teve, não tiveram comigo”.

A ex-integrante também criticou uma declaração atribuída a Rick durante uma mesa de debate. Segundo ela, o vereador teria afirmado que mulheres trans muitas vezes sequer tinham uma escala 6x1 e que lutava por elas.

“Eu até fiz um vídeo no TikTok falando sobre isso porque em uma mesa de debate onde a gente foi, que eu estava presente ainda, ele teve a cara de pau de falar: ‘Mulheres trans muitas das vezes não têm nem a escala 6x1, eu luto por vocês’. De verdade, engoli aquilo a seco e isso vem na minha cabeça o tempo inteiro. É uma mentira muito descarada, chega a ser bizarro ver alguém mentindo na sua cara”.
Atividades do gabinete e promoção pessoal
Na representação, os ex-assessores afirmam que, durante o mandato, passaram a desempenhar atividades que, segundo eles, não estariam relacionadas às atribuições institucionais do gabinete.
Entre as tarefas citadas estão a produção de conteúdo para redes sociais e o gerenciamento de perfis e páginas vinculadas à promoção pessoal do parlamentar.
Os servidores também afirmam que coordenadores do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), particular de Rick, teriam sido nomeados para cargos no gabinete e atuariam em atividades de promoção pessoal do vereador.
A representação também afirma que servidores prestavam serviços em favor do VAT durante o horário de expediente na Câmara Municipal do Rio de Janeiro.
Outro relato diz respeito à realização de atividades relacionadas à futura campanha eleitoral durante o horário de expediente. Segundo os ex-assessores, integrantes da equipe teriam sido orientados a coletar números de telefone de pessoas nas ruas para o envio de mensagens durante a futura campanha de Rick para deputado federal.
Relatório apresentado ao MPT relata que integrantes da equipe teriam sido orientados a coletar números de telefone nas ruas para o envio de mensagens durante a futura campanha de Rick Azevedo a deputado federal - Arquivo/MPT
Relatório apresentado ao MPT relata que integrantes da equipe teriam sido orientados a coletar números de telefone nas ruas para o envio de mensagens durante a futura campanha de Rick Azevedo a deputado federalArquivo/MPT
Além da produção de conteúdo para redes sociais, os assessores relatam que havia pressão para que integrantes da equipe curtissem, comentassem e compartilhassem publicações de Rick e do VAT.
Segundo os relatos, as cobranças não se restringiam ao horário de expediente e também ocorriam durante os períodos de descanso.
Os ex-assessores afirmam ainda que, embora a jornada apresentada pela equipe fosse de “4x3 com meio período”, havia cobrança frequente por disponibilidade integral, inclusive aos fins de semana.

Rateios e uso de recursos públicos

Outro ponto apresentado na representação diz respeito a supostos rateios internos para custear água, café e alimentação em eventos organizados pelo gabinete.
De acordo com os ex-assessores, havia pressão para que integrantes da equipe contribuíssem financeiramente, independentemente da remuneração recebida.

Ainda segundo os relatos, aqueles que não contribuíam eram expostos aos demais integrantes da equipe.
Mensagens mostram cobranças de contribuição para despesas do gabinete - Arquivo/MPT
Mensagens mostram cobranças de contribuição para despesas do gabineteArquivo/MPT
A denúncia também pede a apuração de possível uso de bens e recursos públicos para fins de promoção pessoal, eleitorais e particulares. Entre os itens citados estão impressoras, papel, toner, equipamentos de informática e a própria estrutura administrativa do gabinete.
Mensagem apresentada na representação afirma que o mandato arcava, com recursos públicos, com a confecção de materiais para um movimento considerado alheio à atividade parlamentar - Arquivo/MPT
Mensagem apresentada na representação afirma que o mandato arcava, com recursos públicos, com a confecção de materiais para um movimento considerado alheio à atividade parlamentarArquivo/MPT

Intimidação e assédio moral

Na representação, os 11 ex-assessores afirmam que, logo nos primeiros meses do mandato de Rick, teria se instaurado no gabinete um ambiente marcado por intimidação, medo, insegurança funcional e práticas de constrangimento.
Segundo os relatos, somente no primeiro ano do mandato, ao menos 14 assessores teriam sido exonerados.
Os ex-servidores afirmam que episódios de assédio moral incluíam gritos, repreensões, humilhações e exposições vexatórias atribuídas a integrantes da liderança e ao próprio vereador. As situações teriam ocorrido em reuniões, nas dependências do gabinete e durante atividades externas.
Em casos de discordâncias, dúvidas ou críticas, os assessores relatam ainda formas indiretas de constrangimento. Segundo eles, alguns servidores passavam a ser isolados, deixavam de receber comunicação das lideranças por dias ou semanas, eram excluídos de conversas e atividades importantes e se tornavam alvo de comentários depreciativos e fofocas internas.
Os relatos também atribuem ao próprio vereador o uso do salário dos assessores como instrumento de pressão. Segundo a representação, Rick afirmava que determinados comportamentos deveriam ser aceitos em razão da remuneração recebida e que, caso os servidores estivessem insatisfeitos com os valores, poderiam deixar o gabinete.
Os ex-assessores afirmam ainda que servidores que recebiam salários de aproximadamente R$ 1,5 mil a R$ 2 mil precisavam arcar com custos de deslocamentos frequentes para locais de panfletagem.
Segundo os relatos, a chefia transmitia a ideia de que os trabalhadores deveriam comparecer às atividades independentemente de como conseguiriam chegar ao local, mesmo que precisassem pedir dinheiro emprestado.
Eles também afirmam que precisavam pagar a própria alimentação durante atividades externas.
Servidor relata infarto durante o período no gabinete
Um dos ex-servidores, que afirma ter trabalhado durante um ano e seis meses no gabinete, relata ter vivido em um ambiente que considera tóxico, intimidatório e marcado por práticas de assédio moral.
Segundo o relato apresentado ao MPT, durante 2025, enquanto ainda trabalhava no gabinete, ele passou a sentir, em diversas ocasiões, pontadas e choques fortes na região do coração durante o expediente.
Em 28 de setembro de 2025, sofreu um infarto agudo do miocárdio e foi internado. Segundo o documento, recebeu alta em 4 de outubro, permaneceu afastado por 45 dias e retornou ao trabalho em 19 de novembro.
O servidor pede que seja investigada a relação entre o episódio cardíaco e o contexto de estresse emocional intenso e contínuo que afirma ter vivenciado no trabalho.
No dia do retorno, ele relata ter sofrido outro episódio que classifica como assédio moral dentro de um vagão do metrô, enquanto seguia para uma ação de panfletagem.
Segundo o relato, duas servidoras da liderança teriam gritado com ele por causa do afastamento pelo INSS durante o período de recuperação do infarto.
As servidoras teriam alegado que ele não poderia ter solicitado o afastamento sem comunicar previamente o gabinete. O servidor afirma ter apresentado prints que demonstrariam tentativas anteriores de obter orientação sobre o procedimento.
Depois do episódio, ele relata ter passado a ser tratado com frieza, distanciamento e silêncio pelas lideranças e pelo próprio vereador.
Segundo o ex-servidor, o ambiente de hostilidade e isolamento contribuiu para o surgimento de crises de pânico e sintomas de ansiedade generalizada.
Entre janeiro de 2026 e sua exoneração, em 18 de agosto, ele afirma ter sido afastado pelo INSS três vezes por problemas de saúde mental. No período, recebeu diagnósticos de burnout, síndrome do pânico e ansiedade generalizada.
Suspeitas de nepotismo e funcionários 'fantasmas'
A representação também pede a apuração de supostas situações de nepotismo e da existência de servidores que, segundo os denunciantes, seriam “fantasmas”.
Um dos casos citados envolve a enfermeira Erinalda Alves Félix, que ocupa o cargo de coordenadora de rua, função descrita na representação como voltada a atividades de militância e mobilização.
Segundo os ex-assessores, Erinalda teria vínculo de parentesco em linha reta com João Victor Alves Félix, chefe de gabinete de Rick.
Por meio de publicações nas redes sociais, o Jornal O Dia identificou indícios de que Erinalda seria mãe de João Victor.
Publicação nas redes sociais de João Victor Alves Félix em que ele se refere a Erinalda Alves Félix como "mãe" - Reprodução/Redes sociais
Publicação nas redes sociais de João Victor Alves Félix em que ele se refere a Erinalda Alves Félix como "mãe"Reprodução/Redes sociais
Nas prestações de contas da campanha de 2024, Rick declarou pagamentos a João Victor Alves Félix e Erinalda Alves Félix.
Prestação de contas registra pagamentos a Erinalda Alves Félix e João Victor Alves Félix. Os dois são citados na representação do MPT. - Arte O Dia/TSE
Prestação de contas registra pagamentos a Erinalda Alves Félix e João Victor Alves Félix. Os dois são citados na representação do MPT.Arte O Dia/TSE
Segundo os relatos apresentados ao MPT, Erinalda compareceria apenas esporadicamente ao gabinete.

Na campanha de 2026, João Victor também aparece entre os fornecedores da candidatura de Rick. Dados da prestação de contas eleitoral indicam pagamento de R$ 35 mil a ele.
A representação também cita Marcos Vitor de Oliveira Gouvea, apontado pelos denunciantes como namorado de Rick e identificado no documento como coordenador de campanha.
Na campanha de 2026, Marcos Vitor recebeu R$ 35 mil da candidatura de Rick, segundo os dados da prestação de contas eleitoral.
Prestação de contas registra pagamento de R$ 35 mil a Marcos Vitor de Oliveira Gouvea - Arte O Dia/TSE
Prestação de contas registra pagamento de R$ 35 mil a Marcos Vitor de Oliveira GouveaArte O Dia/TSE
De acordo com os relatos apresentados pelos ex-assessores, Marcos compareceria esporadicamente ao gabinete e, quando estava no local, utilizaria as dependências para realizar atividades relacionadas ao próprio trabalho como analista de investimentos.
Os ex-servidores também afirmam que, em 16 de agosto deste ano, Marcos Vitor Gouvea publicou um comentário na página “Revolução Solidária do RJ”, no Instagram, no qual teria exposto publicamente que assessores haviam sido demitidos sob a alegação de que “não queriam trabalhar”, além de mencionar os salários recebidos por eles.
Comentário de Marcos Vitor de Oliveira Gouvea na página Revolução Solidária do RJ é citado na representação apresentada ao MPT como um dos episódios de exposição pública dos ex-assessores - Arquivo/MPT
Comentário de Marcos Vitor de Oliveira Gouvea na página Revolução Solidária do RJ é citado na representação apresentada ao MPT como um dos episódios de exposição pública dos ex-assessoresArquivo/MPT
Segundo os denunciantes, a publicação seria mais um episódio de exposição pública de ex-assessores.
“Tal conduta corrobora o contexto da falta de pudor para cometer assédio moral, constrangimento e exposição indevida em público ao qual os assessores parlamentares do vereador Ricardo Azevedo eram submetidos”, aponta a representação.
O que dizem os citados
O Jornal O DIA entrou em contato com Ricardo Azevedo, João Victor Alves Félix, Erinalda Alves Félix e Marcos Vitor de Oliveira Gouvea para solicitar posicionamento sobre as alegações apresentadas na reportagem, mas não obteve resposta até a publicação. O espaço segue aberto para manifestações.

Mensagem apresentada na representação afirma que o mandato arcava, com recursos públicos, com a confecção de materiais para um movimento considerado alheio à atividade parlamentar
Mensagem apresentada na representação afirma que o mandato arcava, com recursos públicos, com a confecção de materiais para um movimento considerado alheio à atividade parlamentar Arquivo/MPT
Relatório apresentado ao MPT relata que integrantes da equipe teriam sido orientados a coletar números de telefone nas ruas para o envio de mensagens durante a futura campanha de Rick Azevedo a deputado federal
Relatório apresentado ao MPT relata que integrantes da equipe teriam sido orientados a coletar números de telefone nas ruas para o envio de mensagens durante a futura campanha de Rick Azevedo a deputado federal Arquivo/MPT
Comentário de Marcos Vitor de Oliveira Gouvea na página Revolução Solidária do RJ é citado na representação apresentada ao MPT como um dos episódios de exposição pública dos ex-assessores
Comentário de Marcos Vitor de Oliveira Gouvea na página Revolução Solidária do RJ é citado na representação apresentada ao MPT como um dos episódios de exposição pública dos ex-assessores Arquivo/MPT
Mensagens mostram cobranças de contribuição para despesas do gabinete
Mensagens mostram cobranças de contribuição para despesas do gabinete Arquivo/MPT
Publicação nas redes sociais de João Victor Alves Félix em que ele se refere a Erinalda Alves Félix como "mãe"
Publicação nas redes sociais de João Victor Alves Félix em que ele se refere a Erinalda Alves Félix como "mãe" Reprodução/Redes sociais
Prestação de contas registra pagamentos a Erinalda Alves Félix e João Victor Alves Félix. Os dois são citados na representação do MPT.
Prestação de contas registra pagamentos a Erinalda Alves Félix e João Victor Alves Félix. Os dois são citados na representação do MPT. Arte O Dia/TSE
Prestação de contas registra pagamento de R$ 35 mil a Marcos Vitor de Oliveira Gouvea
Prestação de contas registra pagamento de R$ 35 mil a Marcos Vitor de Oliveira Gouvea Arte O Dia/TSE
Vereador e candidato a deputado federal pelo Rio de Janeiro, Ricardo Azevedo, conhecido como Rick Azevedo
Vereador e candidato a deputado federal pelo Rio de Janeiro, Ricardo Azevedo, conhecido como Rick Azevedo Andressa Anholete/Agência Senado
Jeniffer Costa defendeu a mãe nas redes sociais com veemência
Jeniffer Costa defendeu a mãe nas redes sociais com veemência Reprodução/Rede Social