'Roque Santeiro': relembre personagens da novela que é reprisada a partir desta segunda

Roque Santeiro estreia na tarde desta segunda-feira, 5, na faixa Edição Especial da Globo, prevista para ir ao ar a partir das 14h45, depois do Jornal Hoje. Em sua terceira reapresentação na TV aberta (as anteriores foram em 1991 e 2001), a novela exibida originalmente em 1985 tem como missão alavancar o horário vespertino, atualmente ocupado pela reprise de Além do Tempo.

Criada por Dias Gomes (1922-1999) e escrita por Gomes, Aguinaldo Silva e Marcílio Moares, Roque Santeiro é baseada na peça O Berço do Herói, de Gomes, de 1963. Uma sátira política, religiosa e social que questiona, em seu argumento central, quem são os heróis, quem os cria e para que eles servem.

A trama principal, no caso da novela, se dava em torno da figura de Roque Santeiro, interpretado por José Wilker, um filho da fictícia cidade de Asa Branca, no interior do Nordeste, um microcosmo do Brasil.

Na juventude, Roque, que esculpia santos - daí o seu apelido -, travou uma suposta batalha com o bandido Navalhada, que invadiu a cidade, roubou a igreja e chantageou os poderosos. A história que se contava é que Roque havia sido morto e degolado por Navalhada. Seu corpo fora achado nas margens de um rio que banhava a cidade. Depois de a lama desse rio supostamente curar uma menina que tinha problemas nas pernas, Roque foi considerado "santo".

Quem sustentava o mito era, sobretudo, o rico fazendeiro Sinhozinho Malta, personagem de Lima Duarte. Com influência política em Asa Branca, ele se beneficiava das atenções que Roque recebia, enquanto armava suas falcatruas. Aliada a ele estava Porcina, papel de Regina Duarte, sua amante do passado que, para encobrir o romance, inventou que, na verdade, era casada com Roque.

Quando Roque retorna à cidade, depois de mais de 20 anos, ele vira uma ameaça a Sinhozinho e à ordem econômica da cidade, que se sustenta em torno do seu mito. Descobre-se, então, que Roque não foi morto por Navalhada. Ele, na verdade, fugiu, levando o dinheiro do roubo e o crucifixo da igreja.

Roque, Porcina e Sinhozinho vivem um triângulo amoroso. Na época, foram gravados dois finais para o trio. Em um deles, Porcina ficava com Sinhozinho. No outro, ia embora de Asa Branca com Roque. O primeiro é o que foi exibido, seguindo a vontade de Dias Gomes.

Sucesso na exibição original, Roque Santeiro abordou, em 209 capítulos, a ganância, por meio de personagens como Zé das Medalhas (Armando Bógus); a violência doméstica sofrida por Lulu (Cássia Kis); a conivência da igreja com poderosos simbolizada pelo Padre Hipólito (Paulo Gracindo); a contestação do celibato e a influência política na igreja por meio do Padre Albano (Claudio Cavalcanti); os meandros do poder via o prefeito Florindo Abelha (Ary Fontoura); e o falso moralismo das beatas comandadas por Dona Pombinha (Eloísa Mafalda).

Além dos protagonistas - com relevância para a composição que Lima Duarte fez para Sinhozinho e Regina Duarte em um de seus melhores papéis na televisão -, também se destacaram personagens como as dançarinas Ninon e Rosaly (Claudia Raia e Isis de Oliveira), o professor e lobisomem Astromar Junqueira (Ruy Resende), a virgem Mocinha (Lucinha Lins) e o ator galã Roberto Matias (Fábio Jr.).

Por entrar na faixa Edição Especial, Roque Santeiro será exibida editada, com cerca de 150 capítulos. A novela está disponível na íntegra no Globoplay.

Primeira versão foi proibida pela ditadura militar

Em 1975, dez anos antes de Roque Santeiro ser exibida, a Globo tentou levar a novela ao ar, com o título de Roque Santeiro e a Incrível História da Viúva que Foi Sem Nunca Ter Sido. Cerca de 30 capítulos já haviam sido gravados, com Lima Duarte como Sinhozinho Malta e Betty Faria como Viúva Porcina. Francisco Cuoco estava destinado a viver Roque. Também estavam no elenco Milton Gonçalves, Eva Todor, Lutero Luiz, Dennis Carvalho, Rosamaria Murtinho, Marcos Paulo e Débora Duarte.

No entanto, no dia da estreia, em 27 de agosto daquele ano, a novela foi proibida de ir ao ar pela censura imposta pela ditadura militar que governava o País. A notícia foi dada pelo Jornal Nacional, lida por Cid Moreira.

De acordo com o documento do governo, Roque Santeiro, àquela altura escrita apenas por Dias Gomes, continha "ofensa à moral, à ordem pública e aos bons costumes, bem como achincalhe à Igreja".

Para conter a crise instalada no horário de novela das 8, a Globo exibiu um compacto de Selva de Pedra, de 1972, uma história de Janete Clair, mulher de Gomes. Enquanto isso, a própria Janete escrevia uma nova trama, Pecado Capital, que se tornaria um de seus grandes sucessos. Grande parte do elenco foi aproveitada em Pecado Capital, inclusive o trio de protagonistas: Lima Duarte, Betty Faria e Francisco Cuoco.

Em entrevista ao Estadão em 2024, Betty Faria afirmou que não aceitou o convite para viver Porcina na versão de 1985. A atriz disse que considerava a personagem "mau-caráter". A Globo convidou, então, Regina Duarte.