Morre Netinho, a voz de uma geração do axé, aos 60 anos

Morreu nesta terça-feira, 13, o cantor Netinho, aos 60 anos, em Salvador, na Bahia, onde estava internado. O artista tratava um linfoma não Hodgkin, câncer que se origina no sistema linfático. A morte foi confirmada pela equipe do artista em suas redes sociais. "É com uma tristeza que corta a alma que comunicamos o falecimento do cantor Netinho, ocorrido na manhã de hoje. Nos últimos meses, Netinho enfrentava um linfoma não Hodgkin do tipo B, que evoluiu para um quadro de falência renal e disfunção múltipla de órgãos", dizia o post.

O comunicado infoRma ainda que "Netinho partiu tranquilo. Durante os últimos meses de tratamento, costumava dizer: 'Partirei feliz, realizado, pois a vida me deu muito mais do que eu sonhei. Levarei comigo o sorriso de cada fã que foi feliz com a minha arte.'"

Por desejo expresso do próprio Netinho, o velório e a cremação serão realizados de forma reservada, em uma cerimônia restrita a familiares e amigos próximos.

A carreira de Netinho

Um dos nomes que ajudaram a popularizar o axé music no Brasil, o artista baiano ganhou projeção nacional nos anos 1990 com sucessos e construiu uma carreira de quase quatro décadas, marcada por grandes êxitos, períodos de afastamento dos palcos e polêmicas.

Ernesto de Souza Andrade Júnior nasceu em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo Baiano, em 12 de julho de 1966, mas foi em Salvador que encontrou a música que o levaria a uma das maiores projeções da axé music.

Ao longo de quase quatro décadas de carreira, Netinho passou dos trios elétricos do carnaval baiano ao topo das paradas nacionais, transformou Milla em um dos grandes símbolos do gênero, experimentou diferentes caminhos musicais e atravessou períodos de enorme exposição pública.

A relação com a música começou cedo. Enquanto cursava Engenharia Civil, começou a se apresentar profissionalmente em bares de Salvador, inicialmente com repertório ligado à MPB e à bossa nova. A descoberta do carnaval e dos trios elétricos mudaria definitivamente seus planos.

Da Banda Beijo à explosão do axé

Em 1988, Netinho assumiu os vocais da Banda Beijo. O grupo rapidamente se tornou uma das forças da música baiana e ajudou a levar para o restante do País uma sonoridade que ainda começava a ser identificada como axé music.

Beijo na Boca abriu o caminho para a projeção nacional, enquanto os discos seguintes ampliaram o repertório da banda.

Com Sem Repressão, lançado em 1989, a Banda Beijo combinou carnaval, pop e outros elementos musicais. O trabalho também carregava temas sociais e ambientais, mostrando que o repertório de Netinho não se limitava às canções festivas.

No ano seguinte, o cantor protagonizou uma das imagens mais marcantes de sua primeira fase: levou um trio elétrico para a Itália durante a Copa do Mundo de 1990, onde se apresentou para torcedores em Turim.

Em 1991, veio Badameiro. No ano seguinte, a banda lançou Aconteceu Axé Music, título que incorporava justamente a expressão usada para identificar o movimento musical que ganhava força nacionalmente. O álbum produziu uma sequência de sucessos, entre eles A Vida É Festa, que integrou a trilha sonora da novela Mulheres de Areia, e rendeu a Netinho seu primeiro Disco de Ouro.

Naquele período, o cantor levou também um trio elétrico à orla de Copacabana, no Rio de Janeiro, em uma apresentação que ajudou a simbolizar a expansão do carnaval baiano para além de Salvador.

A saída da Banda Beijo abriu espaço para a carreira solo. Em 1993, Netinho lançou Um Beijo pra Você, primeiro álbum dessa nova etapa. Vieram depois Nada Vai Nos Separar e Netinho, até que, em 1996, sua trajetória atingiu o ponto de maior popularidade.

'Milla' e o auge nos anos 1990

Gravado em Aracaju, no Sergipe, Netinho ao Vivo! reuniu músicas que já faziam parte do repertório do cantor e apresentou aquela que se tornaria sua assinatura: Milla.

A canção ultrapassou as fronteiras do axé, ganhou as rádios de todo o Brasil e passou a ser cantada por diferentes gerações.

O sucesso foi acompanhado por números expressivos. Segundo o próprio arquivo biográfico do artista, o álbum recebeu certificação de Disco de Diamante e ultrapassou a marca de 3 milhões de cópias vendidas.

Netinho passou a fazer uma agenda intensa de shows e se tornou um dos rostos mais conhecidos da música brasileira naquele momento. Milla foi regravada em diferentes países e idiomas, enquanto o cantor lançava trabalhos e ampliava sua presença fora da Bahia.

A fase de enorme exposição, porém, não duraria para sempre. Depois de uma sequência de discos e apresentações, Netinho decidiu reduzir o ritmo. Em 2003, interrompeu a carreira por um período para dedicar mais tempo à sua única filha, Bruna.

O cantor retornou posteriormente aos palcos e continuou lançando trabalhos, entre eles Minha Praia, de 2008, Uma Noite no Forró Elétrico, de 2012, e projetos posteriores que mantiveram sua produção musical.

A vida pessoal no centro das atenções

A trajetória de Netinho também foi marcada pela disposição em falar sobre aspectos da própria vida que, naquele momento, ainda provocavam forte repercussão na imprensa.

Em 2008, em entrevista à revista Quem, o cantor declarou ser bissexual e contou ter vivido uma relação de três anos com um homem. A declaração provocou repercussão nacional.

Dois anos depois, após uma reportagem do Fantástico sobre o tema, Netinho criticou a edição do programa e afirmou que não gostava de se definir por rótulos. Disse que seus afetos poderiam estar direcionados tanto a homens quanto a mulheres.

A exposição de sua vida privada se somou a declarações sobre drogas e uso de anabolizantes, temas que voltariam a aparecer em sua trajetória principalmente quando enfrentou problemas de saúde.

Netinho também fez críticas públicas à música baiana e a outros artistas em entrevistas e redes sociais, acumulando episódios de atrito com nomes do próprio meio artístico.

A política e as controvérsias

Nos anos seguintes, Netinho passou a ocupar espaço também pelo posicionamento político. Tornou-se apoiador de Jair Bolsonaro e participou de manifestações em defesa do então presidente. Em 2022, filiado ao PL, concorreu a deputado federal pela Bahia e recebeu 31.448 votos, número insuficiente para conquistar uma cadeira na Câmara.

A aproximação com o bolsonarismo provocou conflitos. Em 2021, Netinho cantou Milla em uma manifestação pró-Bolsonaro na Avenida Paulista. Manno Góes, compositor da música, criticou publicamente o uso da canção naquele ato e afirmou que não autorizava sua utilização.

Em 2023, outro episódio relacionado à política repercutiu na carreira do cantor. Um show que faria no Iate Clube de Aracaju durante o carnaval foi cancelado depois de publicações de Netinho em apoio aos atos de 8 de janeiro, em Brasília. O clube declarou que não apoiava atos antidemocráticos.

Netinho contestou o cancelamento e afirmou que nunca havia levado discursos políticos para seus shows. Dois anos depois, voltou a se apresentar no local.

Também houve mudanças na relação do cantor com o carnaval de Salvador. Em 2025, ao explicar sua ausência da festa, Netinho afirmou que havia decidido não participar mais do carnaval da cidade desde 2012 por discordar dos rumos que a música baiana havia tomado.

Em 2024, segundo ele, chegou a oferecer uma apresentação sem cachê artístico, mas a proposta não se concretizou.

O primeiro choque de saúde

Em 2013, a vida de Netinho mudou de maneira abrupta. O cantor foi internado em Salvador depois de apresentar problemas vasculares no abdômen e posteriormente transferido para o Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Durante a internação, passou por cirurgias e enfrentou complicações neurológicas.

Em maio daquele ano, teve um hematoma cerebral e precisou ser submetido a uma cirurgia para retirada de um coágulo. Ao longo dos meses seguintes, enfrentou outros episódios neurológicos e permaneceu internado por cerca de três meses em São Paulo. Recebeu alta em agosto, com indicação de acompanhamento médico e reabilitação motora.

Anos depois, o próprio Netinho relatou que havia sofrido três AVCs durante aquele período e passado por três cirurgias no cérebro. Também contou que perdeu a voz e precisou reaprender movimentos básicos, como andar.

O episódio de 2013 também trouxe à tona informações sobre o uso de anabolizantes. O assunto foi associado à própria fala do cantor sobre o uso desses produtos.

"Fui honesto e procurei saber o melhor endocrinologista. Tinha muita gente sarada, bonita. Entrei e disse a ele o que queria, e ele me passou um exame e disse que tinha uma receita com dois anabolizantes. Eu não era ingênuo. Até por saber os efeitos colaterais, mas estava no médico. Usei a receita que ele me passou, usei os anabolizantes, mas parei. Eu já estava tomando muitas pílulas. A pessoa ficava muito gigante e esse não era o meu objetivo", revelou o cantor em entrevista ao Domingão do Faustão.

Na época, médicos que o atenderam disseram à imprensa que determinadas substâncias poderiam ter contribuído para agravar seu quadro.

O câncer

Mais de uma década depois do episódio neurológico, em março de 2025, aos 58 anos, Netinho foi diagnosticado com linfoma não Hodgkin, um câncer que se origina no sistema linfático.

O diagnóstico ocorreu depois que o cantor sentiu fortes dores nas pernas e nas costas. Ele foi internado no Hospital Aliança Star, em Salvador, onde iniciou o tratamento.

Ao longo dos meses seguintes, compartilhou nas redes sociais parte da rotina de quimioterapia e falou frequentemente sobre a tentativa de manter a atividade profissional apesar da doença.

Em junho de 2025, Netinho descreveu o tratamento como o combate a um linfoma não Hodgkin do tipo B, de natureza agressiva, e informou que passava por diferentes etapas de quimioterapia antes de um transplante autólogo de medula.

Depois de concluir aquela etapa, o cantor anunciou que a doença havia entrado em remissão. Em 2026, porém, exames realizados após problemas nos rins identificaram a volta do linfoma. Em maio, Netinho revelou a recidiva e retomou o tratamento. Em agosto, informou que havia chegado à nona sessão de quimioterapia e que o planejamento previa 16 sessões antes de um transplante autólogo.

A doença voltou a ocupar o centro de sua rotina no segundo semestre de 2026. Em setembro, Netinho chegou a falar sobre alterações na voz durante o tratamento e sobre o desejo de voltar aos palcos.

Em 30 de setembro de 2026, sua equipe informou que o cantor estava novamente internado no Hospital Aliança Star, em Salvador, após a recidiva do linfoma não Hodgkin.

A assessoria comunicou que ele havia decidido se afastar temporariamente das redes sociais para concentrar suas energias na recuperação.