A experiência de se ver representada e o poder de transformar a maneira como o público enxerga a si mesmo e o futuro estão no centro do momento atual da carreira de Roberta Rodrigues. Aos 25 anos de trajetória profissional, a atriz, que ficou conhecida por Cidade de Deus e acaba de completar 44 anos, assume sua primeira protagonista no streaming, em Verônika com K.
A produção do Globoplay, criada e escrita por José Júnior, com direção-geral de Silvio Guindane e com os oito episódios já disponíveis, coloca três gerações de mulheres negras no centro da narrativa. E reverbera para além da tela.
Roberta interpreta uma advogada criminalista de sucesso, que não vive mais na comunidade em que vivia e onde seu irmão morreu baleado durante uma troca de tiros entre policiais e criminosos. Para a atriz, dar vida a essa história é uma oportunidade de mudar os padrões. "Muda todo o futuro, muda o presente, muda um lugar ancestral, muda os estigmas, muda o padrão", afirma ao Estadão.
Prova disso são as mensagens que a atriz está recebendo sobre como tem sido importante acompanhá-la nesta história. "O que mais tem me emocionado é ver mulheres de todas as etnias me mandando mensagem dizendo: 'Eu me guio em você'."
Segundo Roberta, algumas dessas mulheres disseram querer seguir a carreira jurídica depois de acompanhar a personagem, enquanto outras afirmam ter encontrado incentivo para retomar os estudos. Essas reações, ela avalia, reafirmam a importância de apresentar mulheres negras em posições de poder, sem restringir suas histórias à dor ou à superação de dificuldades. "É muito bonito se ver não em lugar de dor, de pobre coitadas, de lamento, mas num lugar de poder, de predadora", afirma.
A atriz também defende a liberdade de Verônika para conduzir a própria vida sem ser submetida a julgamentos diferentes daqueles que recaem sobre personagens masculinos. Além disso, ela reúne diferentes dimensões da experiência feminina e não precisa corresponder a um modelo de comportamento para ser admirada. A possibilidade de apresentar uma mulher negra complexa, que exerce poder e toma decisões, é parte do significado que a atriz atribui à produção.
"Ela é uma mulher batalhadora, uma mãe incrível, uma filha incrível, foi uma irmã incrível, tanto é que continua fazendo justiça pelo irmão, e é uma advogada incrível", diz.
Sobre este momento, ela diz: "Eu estou tocando na utopia que as pessoas sempre falaram para mim. Meus sonhos eram tudo utopia. E aí eu estou aqui. A utopia está aqui na minha mão".
A trama de 'Verônika com K' e o aprendizado com advogadas negras
A personagem de Roberta recebe a proposta de defender Rod (Dhério Chagas), chefe do tráfico de sua antiga comunidade e um amor do passado, em meio à prisão de seu mentor, o advogado Orestes Schneider (Marcelo Torreão), por suspeita de envolvimento em esquemas de corrupção.
A trama também aborda a rivalidade entre Rod e Cristiano (André Luiz Miranda), amigo de infância de Verônika que se tornou policial, e apresenta as relações familiares da protagonista com sua mãe, Glória (Maria Ceiça), e sua filha, Kenya (Emmy Neves).
A preparação para interpretar Verônika levou Roberta a rever suas percepções sobre a advocacia criminal. A atriz conversou com as advogadas Alexandra e Kenya, amigas de José Júnior e referências para a construção da personagem, e diz ter aprendido sobre a necessidade de separar o julgamento pessoal do exercício profissional.
A experiência também lhe mostrou como mulheres negras que atuam no Direito precisam demonstrar constantemente sua competência em um ambiente no qual sua autoridade nem sempre é reconhecida de imediato. "É um lugar de resistência, de resiliência, de provas. A gente tem que, literalmente, provar no tribunal e provar para si o tempo todo", afirma.
Essa dimensão aparece na trajetória de Verônika, que, apesar de vencer as causas que assume, continua sem conseguir se tornar sócia no escritório em que trabalha. Para Roberta, a situação evidencia obstáculos que não desaparecem apenas porque uma profissional demonstra competência.
Ainda assim, a personagem insiste em conquistar o espaço que considera merecido. A atriz vê nessa persistência uma característica de mulheres que, historicamente, precisaram enfrentar barreiras para ocupar posições das quais foram excluídas. "Porque se a gente desistisse na primeira, a gente não estaria aqui. Somos o tempo todo resistência e resiliência", diz.
Uma protagonista que não pede licença
Ao construir Verônika, Roberta procurou compreender as marcas deixadas pela tragédia que afastou a personagem da comunidade onde cresceu. Para a atriz, não se trata simplesmente de uma mulher que decidiu deixar a favela para trás, mas de alguém que precisou reconstruir a própria vida diante de uma perda irreparável.
"Ela só se transforma nessa grande advogada porque foi aquela menina do passado, aquela menina que sonhava, aquela menina que estudava, aquela menina que tinha o amor", afirma.
Ela vai além: "Verônika é a representatividade de tantas mulheres que a gente encontra ao nosso redor. O tempo todo a gente está tendo que deixar para trás as coisas para poder sobreviver, para poder resistir, e Verônika é mais uma dessas mulheres", diz.
A relação com o irmão também ajuda a explicar a maneira como Verônika encara o trabalho. Cada causa vencida carrega, para ela, um sentido que ultrapassa o reconhecimento profissional. "Toda vez que ela vence, é um 'venci pelo meu irmão'", diz Roberta.
A atriz identifica nessa motivação uma experiência compartilhada por muitas mulheres, especialmente negras, que frequentemente carregam consigo a responsabilidade de conquistar não apenas por si mesmas, mas também por quem veio antes e por quem ainda virá.
Oportunidades também atrás das câmeras
Para Roberta, sua conquista não representa um ponto de chegada, mas uma oportunidade de ampliar os caminhos. A atriz defende que a transformação do audiovisual precisa ir além da escalação de protagonistas negros e alcançar também as equipes técnicas e os espaços de decisão.
"A gente está caminhando, mas não pode ficar num lugar confortável, achando que tem uma série aqui, tem uma novela ali, tem um filme aqui, e que isso é suficiente. Não é. A gente precisa estar atualizando esse lugar. A gente precisa realmente fazer essa transformação efetivamente", afirma. "Enquanto não tiver meio a meio, eu vou dizer sempre que falta muito."
Ao receber o convite para protagonizar Verônika com K, ela conta que pediu ao criador da série, José Júnior, que a equipe fosse majoritariamente negra, incluindo pessoas que ainda não tivessem experiência naquele formato de produção para que pudessem aprender. Ele aceitou.
Outro desejo dela é que a representatividade deixe de depender de iniciativas isoladas e se transforme em uma realidade constante na indústria audiovisual. O trabalho artístico, afirma, é uma forma de interferir no presente, rever o passado e contribuir para transformar o futuro.
Sobre seu papel neste movimento, conclui: "Entendi que o meu lugar como Roberta, nessa existência, é um lugar de abertura de caminhos, como muitas foram para mim".

