Candidato derrotado à presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou que não recebeu ajuda de nenhum governo para sair do Brasil, mas que levará detalhes de sua chegada aos Estados Unidos "para o túmulo". Em entrevista publicada pelo jornal "The New York Times" nesta quinta-feira (5), o senador classificou o Judiciário brasileiro como "extremamente rigoroso" e voltou a contestar, sem provas, o resultado das eleições.
"Foi tudo obra minha. Não houve ajuda absolutamente de ninguém, de nenhum governo. Como cheguei até aqui, vou levar para o túmulo", disse. Ainda segundo Flávio, a fuga foi decidida espontaneamente com sua mulher, Fernanda Bolsonaro. "Pode até ter havido incentivo, mas nada além disso."
Um dia depois das eleições presidenciais, realizadas em 25 de outubro, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que o parlamentar entregasse seus passaportes. A ordem fazia parte do processo que investiga Flávio e o advogado Willer Tomaz. No entanto, horas depois, em 27 de outubro, aliados confirmaram que o candidato derrotado havia deixado o Brasil rumo aos Estados Unidos.
"Já sei que o resultado final será a minha prisão", afirmou Bolsonaro, ressaltando que considera haver uma "motivação política" por trás da atuação do Judiciário brasileiro. Ele ainda voltou a declarar que o resultado das eleições foi "matematicamente impossível". "Sei que isso não vai levar a nada. Perdi para o sistema", disse.
Flávio também ressaltou que tem "suspeitas" ao ser questionado sobre suas alegações de fraude. "Ninguém pode afirmar com 100% de certeza que estou certo, assim como ninguém pode afirmar com 100% de certeza que estou errado", disse.
O senador ainda comentou sobre o posicionamento do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que não reconheceu a vitória de Lula e considerou as eleições brasileiras "estranhas". "Ele não tomou partido, o que é o correto a fazer", afirmou, agradecendo a Trump por permitir sua permanência no país.
Flávio também lembrou do momento da abordagem de agentes da Polícia Federal, que informaram o prazo de 24 horas para ele entregar o seu passaporte, após o parlamentar sair da casa do pai. O ex-presidente Jair Bolsonaro cumpre prisão domiciliar em Brasília.
Segundo o senador, o pai, com os olhos marejados, chamou-o de lado antes de se despedirem. "Ele olhou nos meus olhos e disse: 'Você já sabe onde eles querem chegar com isso, não é?'", recordou. "Eu disse: 'Pai, já sei. E estou preparado, sei o que tenho que fazer'. Virei as costas e fui embora", concluiu. Segundo ele, nenhum dos dois falou sobre um plano de fuga.
Conforme Flávio, sua família está se adaptando aos Estados Unidos, embora ele espere que a permanência seja temporária. "Vou precisar seguir com minha vida a partir dos Estados Unidos, pelo menos por enquanto", disse. Ainda assim, não descartou um retorno à política. "Se houver novas eleições, obviamente serei candidato novamente", destacou.
Carta golpista
Após desembarcar nos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro publicou nas redes sociais uma carta de tom golpista. No texto, ele questionou, sem provas, o resultado das urnas, que deram vitória a Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e se apresentou com "o verdadeiro presidente eleito" do Brasil. Em nova versão da carta, o senador substituiu a expressão "presidente eleito" e disse ser o "líder do Brasil".
O senador disse, no documento, que a decisão que ampliou o horário de votação até as 19h garantiu a reeleição do petista. Dados do Tribunal Superior Eleitoral apontam, entretanto, que apenas 34,3 mil votos foram registrados após a prorrogação. Apesar das críticas de Flávio, o resultado do pleito foi reconhecido por sua sigla, o Partido Liberal (PL).
Flávio Bolsonaro chegou à Flórida na última quarta-feira (28). Para a fuga, ele, a mulher e as duas filhas do casal seguiram em um jatinho privado de Puerto Iguazú, na Argentina, rumo ao Aeroporto de Opa-locka, em Miami. Antes de tocar o solo dos Estados Unidos, a aeronave fez uma breve escala em Guayaquil, no Equador.

