Fincar a Bandeira do Brasil

De ato cívico à demarcação de território, em meio a um complexo panorama geopolítico marcado pelo desrespeito a acordos, fronteiras e soberanias

Bandeira do Brasil hasteada ao lado da Base Comandante Ferraz na Antártica
Bandeira do Brasil hasteada ao lado da Base Comandante Ferraz na Antártica -
Colunista Luiz André Ferreira
Apesar da histórica presença no continente gelado, esta é apenas a segunda vez que o Brasil se aventura além do Círculo Polar Antártico, uma das principais linhas imaginárias da Terra, localizada a 66°33’ de latitude.

Trata-se de um dos ambientes mais desafiadores do planeta, cuja navegação exige embarcações ainda mais adaptadas, além de planejamento rigoroso, intensa coordenação, monitoramento contínuo e extremamente preciso.

É considerado o ponto mais perigoso para a navegação. As condições meteorológicas são mais severas, com temperaturas congelantes, instabilidade constante e visibilidade reduzida. Esse conjunto de fatores justifica a baixa quantidade de expedições capacitadas para alcançar essa região extrema.
Navio Fura Gelo

O potente e bem equipado Navio Polar Almirante Maximiano leva a bordo duas aeronaves do modelo UH-17. Elas só conseguem realizar decolagens durante raras e curtas janelas de tempo favoráveis. A intensa instabilidade nessa área exige análises meteorológicas permanentes e aprofundadas, além de elevada precisão operacional.

Foram incluídas nessa rota extrema, passagens por áreas pouco navegadas e de grande relevância histórica para o Brasil. A embarcação cruzou as ilhas batizadas em homenagem ao cientista e astrônomo belga-brasileiro Luís Cruls, com reconhecimento internacional por suas pesquisas e descobertas nas áreas de astronomia, geodésia e cartografia.
Brasileiros Homenageados em Geografia Antártica

Já o Pico Almirante Alexandrino de Alencar homenageia o oficial que marcou o processo de modernização da Marinha Brasileira no início do século XX. Também teve forte simbolismo a passagem da comitiva nas proximidades do Monte Rio Branco, em tributo ao Barão, patrono da diplomacia brasileira e figura central na consolidação das fronteiras nacionais e na incorporação do Acre ao território brasileiro.
Base Fixa Brasileira
O Brasil mantém, desde 1984, uma base própria erguida na Ilha Rei George, na Baía do Almirantado. Após um incêndio, a estrutura foi reconstruída em 2020, elevando a Base Comandante Ferraz à condição de uma das maiores, mais atuantes e com equipamentos de pontam figurando como uma das mais atuantes entre os países signatários do Tratado da Antártica.
A estação conta com 17 laboratórios, ampla capacidade de alojamento, reforço de uma frota de embarcações adaptadas e um laboratório flutuante.
Mesmo antes de possuir uma base fixa, a Hidrografia Brasileira já marcava presença no continente gelado por meio de diversas e históricas missões científicas e exploratórias. Além de signatário, esse trabalho contínuo garante, desde 1983, uma cadeira como membro consultivo, conferindo ao país direito de voz e voto nas decisões sobre o futuro do continente.
No ambiente antártico, a atuação brasileira no extremo sul do planeta ultrapassa o simbolismo histórico e reforça compromissos ambientais, científicos e diplomáticos. A presença contínua, aliada à produção de conhecimento e ao respeito aos acordos internacionais, consolida o papel do Brasil como ator relevante na preservação e no monitoramento de um dos ecossistemas mais sensíveis da Terra.
Em um cenário global marcado pelo negacionismo sobre as mudanças climáticas e pela crescente disputa científica e geopolítica a ocupação permanente e a demarcação do território antártico ultrapassa o simbolismo histórico e pesquisador. Demarcar território ganhar importância diplomática em um período em que são rasgados acordos e tratados anteriormente definidos, sim como desrespeitadas fronteiras e soberanias.

* Luiz André Ferreira é professor universitário, jornalista, apresentador e podcaster
Mestre em Projetos Socioambientais, em Bens Culturais e Designer Educacional
Navio Almirante Maximiano
Navio Almirante Maximiano Foto/divulgação Marinha do Brasil