Brasileiros no Reino Unido têm local de votação transferido

Eleitores afirmam que a mudança ocorreu mesmo após o envio regular do comprovante de residência na capital britânica à Justiça Eleitoral

Brasileiros que vivem em Londres relatam que tiveram seus locais de votação transferidos para Edimburgo
Brasileiros que vivem em Londres relatam que tiveram seus locais de votação transferidos para Edimburgo -
Brasileiros que vivem na região metropolitana de Londres, na Inglaterra, relatam que tiveram seus locais de votação transferidos para Edimburgo, na Escócia, dias antes do primeiro turno das eleições. Neste domingo (25), eleitores relembram a situação, alegando que a mudança ocorreu mesmo após o envio regular do comprovante de residência na capital britânica à Justiça Eleitoral.
Diante do problema, cidadãos afetados procuraram as redes sociais do Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal (TRE-DF), responsável pelo voto no exterior, para registrar queixas. A distância rodoviária entre as duas cidades britânicas supera 600 quilômetros, o que inviabilizou a participação de votantes que residem na Inglaterra.
O estudante de mestrado Filipe Marques, de 26 anos, que mora em Brighton, no litoral sul inglês, conta que fez o procedimento com antecedência ao se mudar com uma bolsa de estudos. 
"Algumas semanas depois comemorei junto aos meus pais por vídeo chamada ao ver 'Londres' no meu e-Título. 4 dias antes do primeiro turno, eu estava rolando o Instagram quando apareceu um relato de uma pessoa que tinha tido seu local de voto alterado para Edimburgo. Pensei 'vou olhar só por precaução", descreveu.
Ele chegou a comemorar quando o aplicativo e-Título indicou Londres como seu posto oficial. Dias antes do primeiro turno, ao notar alertas parecidos na internet, ele checou o cadastro e viu a mudança repentina para a capital escocesa.

Segundo Filipe, a viagem para a capital inglesa já estava organizada com antecedência. "Isso já tendo reservado um Airbnb em Londres e comprado passagens de trem para votar com meu amigo brasileiro que também havia solicitado a troca no mesmo dia que eu. Infelizmente tive a surpresa de estar em Edimburgo", contou.

Ele contestou a falta de critérios da decisão e os prejuízos causados aos eleitores. "Foi necessário enviar comprovante de endereço para fazer a solicitação para o voto no exterior, e não houve escolha alguma por Edimburgo. Não entendo como me colocaram em Edimburgo morando a 600 quilômetros de lá, enquanto 40 min de Londres. Uma irresponsabilidade enorme e um ato que prejudicou várias pessoas que querem exercer seu direito de voto", criticou

O brasileiro explicou que tentou acionar as autoridades consulares, mas não obteve solução viável para a viagem. "Tentei contato com todos os canais, e recebi respostas da embaixada dizendo que eleitores que residem próximo a Manchester, e ao norte foram todos transferidos para Edimburgo, sendo que eu moro exatamente no extremo sul da Inglaterra, inclusive no litoral. Sendo estudante e bolsista, tenho limitações trabalhistas não conseguiria me deslocar para Edimburgo, com os custos super elevados", lamentou.

Por fim, ele detalhou que recebeu uma resposta negativa durante a reta final da votação: "Essa semana a Embaixada ainda disse que realizaria uma auditoria em relação aos casos que foram reportados direto a eles. Eu respondi feliz, achando que teria minha situação corrigida, mas disseram que nada seria alterado".

Brasileiras enfrentam sete horas de viagem para votar na Escócia

Grasiele Romanzini Bezerra, de 30 anos, doutoranda na Universidade de Leeds, no norte da Inglaterra, também teve o local de votação transferido de Londres para Edimburgo. Ela e a companheira, Patrícia Ternes Dallagnollo, de 37 anos, haviam votado na capital inglesa em 2022 e já tinham passagens e hospedagem reservadas para o primeiro turno deste ano, em 4 de outubro.

“Poucos dias antes da viagem, a gente atualizou o e-Título e percebeu que nosso local de votação tinha mudado para Edimburgo. Não poderíamos alterar as passagens mais, então não votamos no primeiro turno”, contou Grasiele.

Para participar do segundo turno, as duas precisaram organizar uma viagem até a capital escocesa. O percurso foi afetado por obras em trechos da linha ferroviária e pela tempestade que atingia o norte da Inglaterra e a Escócia.

“A linha de trem está em reforma em alguns trechos, fazendo com que tivéssemos que pegar ônibus naquela parte da jornada, o que já aumentaria a jornada em duas horas. Além disso, a tempestade estava passando pelo norte da Inglaterra e Escócia, o que fez com que o trem parasse na divisa entre Inglaterra e Escócia, e a gente ficou mais uma hora parada lá. E os trens também estão andando em velocidade reduzida devido à tempestade”, relatou.

Segundo Grasiele, elas saíram de casa às 8h e chegaram a Edimburgo às 15h. Apesar das dificuldades, conseguiram votar. As duas ainda precisavam enfrentar o trajeto de volta para Leeds.

“Estamos retornando a Leeds, e só Deus sabe quando chegaremos”, disse.

O que diz o TSE-DF

Procurado pelo MH, o TSE-DF reforçou o comunicado já publicado em suas redes sociais. "Os locais de votação permanecem os mesmos do 1º turno: West London College, em Londres, e sede do Consulado do Brasil, em Edimburgo. Os eleitores que indicaram, durante o autoatendimento, Manchester, Edimburgo ou outras cidades sob a jurisdição do Consulado do Brasil em Edimburgo, votam no Posto Consular de Edimburgo".  
O órgão complementa que neste momento, há 3 dias atrás, quando a publicação foi divulgada, não é mais possível solicitar nova transferência. "Neste momento, não é possível solicitar nova transferência. Eleitores com domicílio eleitoral em Manchester ou Edimburgo poderão solicitar a transferência a partir de 3 de novembro, quando o cadastro eleitoral será reaberto", finaliza.
*Reportagem dos estagiários Rodrigo Maciel e Aretha Dossares, sob supervisão de Larissa Amaral.