Cria da Cidade de Deus, Zona Oeste do Rio, Deize Tigrona é uma das pioneiras do funk. Unindo o cômico e o erótico, começou a cantar em 1998 em um baile próximo a sua casa e teve seu primeiro hit quatro anos depois com a música "Injeção", que a levou para palcos da Europa. Mas, uma depressão a afastou dos shows em 2012, panorama que mudou cerca de sete anos depois. Hoje, aos 42 anos, Deize concilia o seu trabalho como gari e diferentes projetos artísticos como o lançamento do videoclipe de "Sadomasoquista", música que voltou a fazer sucesso 19 anos depois graças ao TikTok e foi relançada pela Batekoo Records.
O que te motivou a cantar funk há 22 anos?
Sempre quis ser artista. Escrevia poesia, rap e me vi cantando funk em 1998. Como moro na Cidade de Deus, ao lado de uma quadra, ali tinha as matinês de domingo. Um DJ anunciou que ia produzir quem tivesse algo e eu tinha uma letra inspirada na minissérie “Hilda Furacão” e nos bailes de briga da CDD... Quando gravei a faixa, influenciei outras meninas da minha comunidade e a formação dos Bondes da Bad Girl e do Fervo. A matinê se tornou o corredor das meninas. A gente fazia letras tentando ofender as outras, mas acabou que a gente estava empoderando o meio musical e o funk, além do feminismo da mulher preta.
Seu primeiro sucesso foi "Injeção", que te levou para o exterior. Como foi essa experiência?
"Injeção" foi o boom e levou o plagio da M.I.A., por isso, conheci a M.I.A. e o Diplo. Daí, começaram os convites internacionais. O primeiro foi para Paris... Depois, passeando num shopping, uma moça me falou que pessoas em Portugal estavam me procurando e eu fui. Foi impressionante, lá eu conheci o Buraka Som Sistema, conheci Dizzee Rascal, que gravou com Shakira depois. Poxa, posso falar que conheço a Shakira por tabela (risos), sou muito fã.... Eu ia ficar cinco dias em Portugal, mas fiz contatos e procurei parcerias para plantar o funk. Fiquei 45 dias. O funk ficou enraizado não só para mim, mas para outros artistas até hoje. Depois, voltei para um turnê maior e fui até para a Dinamarca.
Teve um tempo em que você ficou longe dos palcos. O que aconteceu?
De 2012 até 2018, eu tive uma depressão devido a problemas de família, além de contratos e produtores abusivos… Eu tinha minha quarta turnê na Europa para fazer e não consegui ir. E não acreditava que eu tinha depressão porque pensava que era coisa de rico.
Mas você continuou escrevendo e trabalhando?
Mas você continuou escrevendo e trabalhando?
Eu nunca saí da música. Nesse meio tempo, escrevi protestos como "Prostituto" (feat. com Jaloo), quando o ministro da Infância e Adolescência estava vetando o funk, e "Madame", quando ouvi que eu estava rasgando dinheiro por não ter ido para minha quarta turnê na Europa, mas, na verdade, eu estava tomando antidepressivo. Continuei escrevendo e trabalhando como gari hospitalar, até hoje... Nem sei se o prefeito me conhece (risos), mas eu quero ser transferida para rua para ter maior flexibilização.
Quando você voltou aos palcos de fato?
Isso foi em 2019 quando eu falei: "quero voltar para a Europa", era questão de honra. Um documentário que fiz com uma amiga ia passar em Madrid. Aí, falei com a (gravadora) Batekoo e fomos juntos para a Europa. Quando eu voltei, encontrei o Diplo no Rio, mas chegou a pandemia… Peguei Covid-19, achei que fosse morrer. Depois, peguei meu dinheiro, fui para o Nordeste e, em novembro de 2020, me falaram que "Sadomasoquista" estava bombando aqui no Rio e está até hoje por causa do TikTok.
Agora, você lança um clipe sensual da música. Como se sente?
É o segundo clipe da minha carreira. É um sonho realizado, mas, ao mesmo tempo, veio devido a muita luta. Rolou toda uma burocracia com advogados (para pegar os direitos da música que estava engavetada na Link Records, selo criado pelo DJ Marlboro). Estou emocionada. A cada momento me reconheço mais, sou uma artista como eu quis lá atrás. Óbvio, o capital precisa entrar, é o que paga as contas, mas também sou feliz porque as pessoas me respeitam e compreendem que sou uma artista, até mais que eu.
Quais são seus planos para 2022?
Meus planos são lançar um EP. Também iniciei a escrita da minha biografia e de um protesto. Estou concluindo minha residência no Museu de Arte Moderna (MAM), minha exposição no Jockey Club, meu podcast está aí também. O plano é não parar.
O que representa uma mulher negra, da Cidade de Deus, mãe de três filhos e gari fazendo sucesso nas plataformas digitais como o TikTok?
Ser uma mulher preta cantando funk é uma revolução. Ser uma mulher preta, que mora na comunidade, mãe de três filhos, já é uma questão de sobrevivência. Eu vejo que a mulher preta, principalmente que domina a arte, é uma mulher sagaz, que sabe o que quer, é uma mulher que vai...
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